21/07/2018

O ANTICRISTO

Eliani Gracez 

A teoria dos sonhos de Sigmund Freud vem despertando cada vez mais a atenção sobre o conteúdo vindo do nosso inconsciente. Sonhos são ricos em símbolos e emoções que ajudam o terapeuta a interpretar certas particularidades do inconsciente do seu analisando. Pode-se afirmar que “A interpretação dos Sonhos” de Freud, foi um marco na história. A partir dessa obra voltaram-se olhares para essa parte do nosso inconsciente, os sonhos. Esse assunto eu tratei com mais detalhe no artigo “Sonhos”, já publicado no blog. Mas, então, aonde eu quero chegar? Resposta: em um sonho.
O Anticristo
Sonhei que eu saí de uma aula e desci alguns degraus e entrei em uma catacumba que ficava embaixo de uma universidade católica. Uma enorme catacumba! Ali estavam reunidos os assassinos do Cristo, professores que me deram aula, padres, freis e teólogos. Eles estavam comendo e cantando e me convidaram para comer com eles. Fui convidada por aqueles homens a ficar morando naquele lugar, tinha um quarto amplo me esperando. Eu amava aquelas pessoas que estavam ali reunidas, e aquelas pessoas tinham amor por mim, por isso queriam que eu ficasse com eles. Um aluno que saiu da aula pediu para eu abrir o portão para ele sair. Eu abri o portão, o aluno saiu e chaveei novamente o portão. A chave para sair daquele lugar estava comigo. Caminhei mais um pouco e fui até uma parte não coberta da catacumba, ali haviam incontáveis diminutos fogos, semelhante a chama de vela, espalhados no chão de terra por toda parte. Quando eu percebia que um pequeno fogo estava apagando, eu encostava nele um pedacinho de lenha seca e o fogo não apagava. E assim eu mantinha todas as pequeninas chamas acesas. Cada pequena chama era um Cristo morto e Dele só restava a diminuta chama, por isso os religiosos pensavam cultuar o Cristo vivo, por causa da pequena chama. Mal sabendo que o fogo crístico havia morrido e confundiam o que sobrou, um diminuto fogo, com a totalidade da grandeza do fogo de um Cristo. Estava eu diante da ignorância de moradores, parafraseando Platão, morador da caverna.  Então, o mais incrível aconteceu, o telefone tocou e eu corri para atender, e a voz de um padre ecoou dentro de mim como se aquela voz estivesse no meu quarto, ao meu redor. Eu já não sabia mais se estava acordada ou dormindo. Ao atender ao telefone o padre disse: aqui é o padre fulano de tal, mas eu, ao acordar, não trouxe na memória seu nome. O padre perguntou o que eu estava fazendo naquele lugar, respondi que estava cantando com os religiosos. Então ele fez a pergunta que me fez parar no sonho, ele perguntou, e o Cristo? Eu silenciei ao telefone procurando entender a pergunta. Ele perguntou novamente o que eu iria fazer com o Cristo? Respondi rapidamente – vou dançar com o Cristo assim como Nietzsche dançou com Deus. Nietzsche necessariamente não dançou com Deus, mas dizia que não acreditava em um Deus que não soubesse dançar. Acordei com a voz daquele padre na minha mente. Pensei em tudo e, sobretudo, nas duas perguntas. O que eu estava fazendo naquele lugar? E o que eu faria com o Cristo? Ficaria eu naquele lugar, junto com religiosos e homens que foram meus professores e assassinos do Cristo ajudando a manter vivas aquelas diminutas chamas me iludindo, assim como eles, pensando ser isso  a totalidade de um Cristo, ou sairia dali e dançaria com a chama crística ao sol? A chave do portão estava comigo. Semanas se passaram e eu ainda pensava sobre esse sonho!
Nietzsche e o Anticristo
Nietzsche dizia que o cristianismo aniquilou os instintos do homem superior. Tornando o homem forte um degradado e o homem fraco um virtuoso. O Cristianismo se colocou ao lado de tudo o que era fraco, baixo, fracassado. Matando os instintos necessários a uma vida saudável, ensinando que certo tipo de valores são apenas pecado, tentação ou descaminhos. O cristianismo manteve as pessoas prisioneiras ao medo de pecar, e ao mesmo tempo se apresentou como sendo a solução. Dessa forma o cristianismo encontrou a forma de frear a potência que reside na vontade. Seres sem vontade se tornam cordeiros obedientes. Segundo Nietzsche a moral cristã é antinatural porque não permite dar vazão aos sentidos naturais do Homem, valorizando a fraqueza humana. Nietzsche nos convida a perguntar pelas verdades mudas, ele nos convida a questionar as verdades do nosso tempo. Para Nietzsche todos os valores nos quais a humanidade apoia seus anseios mais sublimes são valores de decadência. Um animal está corrompido quando perde seus instintos. O mesmo aconteceu com o Homem, perdeu seus instintos e por isso está corrompido. O cristianismo corrompeu o Homem tirando dele a vontade de poder, acabando com o Homem superior. Nietzsche valoriza o Homem e sua pulsão, com instintos e capacidade de criação, e o cristianismo corrompeu tudo isso para acabar com a potência do Homem. Nietzsche chama de animal essa espécie de Homem corrompido pelo cristianismo. E assim é contra esse instinto teológico que Nietzsche guerreia. Para ele todo aquele que possui sangue teológico em suas veias é cínico e desonrado em todas as coisas, uma falsidade incurável. As pessoas constroem todo um conceito de moral e virtude em cima dessa falsidade. Tornando tais conceitos sacrossantos e não aceitando qualquer outro ponto de vista. Tudo o que um teólogo considera verdadeiro é falso, aqui, diz Nietzsche, temos um critério de verdade. A razão foi delegada a uma aparência.
            Voltando ao sonho          
Em Mateus 3,11. Marcos 1,7-8. Lucas 3,16. João 1,33, temos algo mais ou menos assim, “eu vos batizo com água para o arrependimento, mas aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu. De fato, eu não sou digno nem mesmo de tirar-lhe as sandálias. Ele vos batizará com fogo e o Espírito Santo.” Eis o fogo corrompido ao longo dos séculos pela ignorância de uma teologia cavernosa que não compreendeu onde reside a cristificação, no fogo da vontade que é muito mais forte. Por isso Nietzsche disse que o cristianismo morreu na cruz. As águas são as nossas emoções, o fogo é o fogo da vontade. Vontade esta considerada feia e pervertida. Ser um ser de vontade foi considerado uma perversão pelos teólogos. O Cristo que batiza com fogo é o próprio fogo. Eis a chama da vontade divina e que Nietzsche considerou como sendo vontade de potência. A potência é uma chama inesgotável e está em nós na vontade, que os teólogos castraram, aniquilara, corromperam ao longo dos séculos. A pergunta do sonho, o que eu faço naquele lugar? Resposta: nada, ali não é o meu lugar. Meu fogo não será corrompido e nem vai se tornar uma diminuta e insignificante chama. O convite para morar com aqueles homens está recusado, minha morada não é com esse tipo de teólogo. Minha teologia, se é que eu tenho alguma, é outra. Não aceito migalhas! A pergunta, o que eu vou fazer com o Cristo foi muito bem respondida no sonho, vou dançar com minha potência que não será corrompida. Quanto a chave, essa eu demorei um pouco mais para entender. Se eu tinha a chave daquele lugar, por que então eu não saía de lá? No início do sonho estava a resposta, eu amava aquelas pessoas e aquelas pessoas me amavam. A chama do Cristo, que não morre, é a chama do amor, mas o cristo é maior do que isso. Sua potência criadora é inesgotável. O Anticristo reside na potência destruidora, e o Cristo na potência criadora. Teólogos consideraram toda potência destruidora, por não terem sabedoria para esquartejar direito a questão, e colocaram tudo no mesmo saco e queimaram vivo. Aliás, de queimar vivo eles entendiam muito bem, porque a potência destruidora, ou, o Anticristo era forte neles. Foi então que eu me dei de conta que eu amava corruptos, assassinos do Cristo, assassinos da minha própria potência, eles teriam que de alguma forma me corromper para que eu continuasse ali, naquela catacumba. O amor foi um golpe baixo, muitas pessoas, sobretudo mulheres se deixam aniquilar por amor. Se deixam mutilar, abrindo mão de si mesmas. Seria eu uma dessas? O projeto dos Anticristos com relação a mim, em me manter calada, adestrada, obediente, falhou. Desde o inicio não foi um projeto inteligente. Mas Anticristo se tivesse inteligência não seria Anticristo, seriam Cristos de potência criadora. Eu não me deixo adestrar, eis a chave que estava comigo e por isso somente eu poderia abrir aquele portão e sair daquele lugar sombrio. A escolha estava nas minhas mãos. Qual caminho seguir, do Cristo ou do Anticristo. Então eu pensei, amor que corrompe, que aniquila, que tenta domesticar a potência, a liberdade, domesticar instintos, pulsões, não é amor, é antiamor, é Anticristo. O amor tem que estar ligado a vontade de potência criadora e não a vontade de potência destruidora. Projetamos uma sombra, não é com a sombra que devemos trabalhar, é com a luz do fogo. Aquele fogo que Platão fala e que está nas costas dos prisioneiros da caverna, é o fogo da vontade. Somente esse fogo pode nos tirar da caverna, o fogo da potência da vontade criadora.  Por isso não saímos da caverna, porque o fogo da potência destruidora venceu nesse planeta. O fogo do Anticristo!

16/07/2018

QUANDO O PROJETO É MAL FEITO

Eliani Gracez

Não é sobre como fazer e sim se vale a pena fazer. Quantas vezes nos percebemos diante de um projeto de vida e nos pergunta como é possível realizar o projeto, se temos dinheiro e tempo para investir. Além dessas perguntas também é necessário se perguntar se vale a pena o investimento, qual retorno que o projeto pode nos trazer. Não adianta querer vender freezer no polo norte, existem ambientes invalidantes para determinados projetos, por isso alguns projetos já nascem falidos. Não se observou onde se queria chegar, se valia a pena o investimento e qual é a nossa motivação para se levar o projeto adiante. Pensando como Coaching, nem todos podem tudo naturalmente. Por isso é preciso avaliar a pessoa que tem um projeto e ver se ela possui habilidades desenvolvidas para levar o projeto adiante. Isso justifica o trabalho de um Coaching, no desenvolvimento de certas habilidades e competências do empresário, mas também no desenvolvimento do projeto, cuidando do empresário e também do projeto. O projeto tem que ter viabilidade, retorno financeiro e emocional, e a pessoa que vai desenvolver o projeto tem que ter certas habilidades desenvolvidas. A abordagem do projeto tem que estar focada e alinhada estrategicamente à empresa.  A gestão do projeto tem que centralizar responsabilidades e coordenar o início do processo. Assim temos que planejar, executar, controlar e finalizar o projeto dentro dos objetivos propostos. Definir bem o processo, ter clareza dos objetivos, focar nas metas, e saber onde especificamente se quer chegar, é fundamental dentro do gerenciamento do projeto. Melhor ainda, que os resultados sejam avaliados dentro de medidas estabelecidas claramente. E assim, o Coaching em gerenciamentos de projetos não só desenvolve habilidades no empresário, mas também alinha suas habilidades no desenvolvimento de projetos bem sucedidos. Um alinhamento metodológico, estratégico, focado nos objetivos e com integração de todas as áreas envolvidas. Outra habilidade fundamental em um projeto é a gestão de recursos. Sobre isso falaremos em outro artigo. Se o projeto não segue certos passos, não somente dentro da racionalidade, mas também da motivação e entusiasmo, então ele não justifica o investimento. Nesse caso, trata-se de uma ideia a mais sem razão e sem motivo para ser levado adiante, esse é o caso onde a razão toma o seu lugar. É racional que um projeto mal elaborado não tenha investimento algum. Não te parece lógico?




UM ARTIGO SEM TÍTULO

Eliani Gracez

Estou aqui quase tendo um treco, vocês entendem “treco”? Ou será que tenho que procurar em um dicionário, montar um Power point, me aconselhar com um especialista em linguística, em português, em etimologia e que tenha pós-doutorado para que “treco” seja então compreendido? Vocês nunca tiveram a vontade de torcer o pescoço de alguém?, ou será que sempre levaram uma vida kantiana, regrada, levantando sempre cedo, dormindo cedo e marcando hora para fazer sexo? Nesse caso, o sexo não é movido pela vontade e sim pela agenda. Vocês não tem noção de quantas pessoas fazem isso, marcam dia e hora até para isso. Lembro que tem alguns anos em um encontro de teoria do conhecimento na PUC-rs, uma professora norte americana que veio para o encontro me explicava que até quando ela escovava os dentes ela seguia um cronograma. Olha que eu me considero organizada, criei filhos, estudei, trabalhei, mantive a casa organizada, não perdi nenhum filho para as drogas, mas, confesso, eu só não tive um treco na frente daquela professora em respeito a sua obra, e, também, porque os brasileiros tratam bem aos estrangeiros. Podemos até maltratar o nosso povo, mas somos receptivos quando se trata de estrangeiros. Certo, confesso, gosto muito de ética, inclusive o meu trabalhos de conclusão em Psicanálise foi em ética, mas considero insuportável, reflexões sem fim que nos levam a lugar nenhum. Entendo por ética uma reflexão acerca da moral e não a moral em si. Mas tudo tem que ser avaliado a partir de uma ética? Um pouco de intuição e de irracionalidade pode facilitar a vida e nos levar a uma vida boa. Eu disse um pouco! Pessoas excessivamente organizadas tem medo do quê? De errar, de sofrer, de não serem bons o suficiente, de serem falíveis. Albert Einstein perguntava, se uma mesa cheia é sinal de mente desordenada, uma mesa vazia é sinal de quê? A essa altura vocês estão se perguntando por que estou quase tendo um treco? Não aguento mais ouvir falar em ética. Será que pessoas éticas são tão éticas assim como parecem ser?  O que é que uma pessoa INFALIVELMENTE ética esconde? Nada pode ser pior, segundo Platão, do que parecer ser sem ser. Algo você esconde, e isso que você esconde é irracional, por isso esconde. Muito bem, antes que eu tenha um treco, dá para mudar de assunto?

13/07/2018

FELIZ ANIVERSÁRIO

Eliani Gracez


A criança em mim ainda está viva. Lembro que na minha infância eu esperava ansiosa pelo meu aniversário. Pois bem, é amanhã, 14 de julho. Estou ansiosa para ler todas as mensagens de felicitações que irei receber. Infantilidade? Será? Ou será que dentro de mim ainda habita uma criança que a fase adulta não conseguiu matar? Prefiro pensar que a criança, a mulher e a anciã cohabitam em charmosa harmonia e delicada sutileza. A criança carrega a inocência original que jamais deve ser perdida. Em meio a tanta teoria, tentativas de justificar o injustificado e necessidade de acabar com o irracional, que acabamos nos perdendo em meio a tudo isso. A inocência é irracional, e pouca coisa é tão bela quanto a inocência da criança. A mente violenta a criança. Justamente na fase onde o raciocínio lógico começa a ter força, é quando a criança começa a adolescência, e a inocente criança descobre que o mundo não é tão inocente como lhe parecia ser, embora algumas crianças descobrem isso bem antes. Mas, na medida do possível, alguma inocência deve ser preservada para que não se mate a criança interior e toda beleza da inocência morra. Assim o caminho fica menos sofrido, ou, mais fácil de ser percorrido. Embora, as dificuldades do caminho aconteçam quando se erra o caminho e se é obrigado a percorrer até o fim um caminho desagradável. Por isso não erre na escolha e mantenha alguma inocência, e a caminhada será agradável. Por outro lado, está entre as minhas crenças que todos que estão nesse planeta são aqueles que erraram o caminho e causaram violência à inocência. Quem já errou uma vez e não compreende a causa do sofrimento que está em percorrer o caminho errado, corre o risco de errar novamente. No entanto, as escolhas devem ser feitas em paz, faz tua escolha em paz e lembra que para cada sim existe um não, e não confunde as coisas. A escolha é se tu estás preparado para o não que vais dar, e não para o sim que é tão fácil de escolher. Estávamos mesmo falando do quê? Há...sim...do meu aniversário! Feliz aniversário criança.

09/07/2018

SÍNDROME DO PENSAMENTO ACELERADO


Eliani Gracez

A Síndrome do Pensamento Acelerado é uma hiper construção do pensamento, uma excessiva atividade mental impedindo e limitando a inteligência e a capacidade de raciocinar e ponderar a respeito de uma situação. Os portadores dessa síndrome tendem a impor suas ideias “goela à baixo” de outras pessoas, não possuem resiliência e muito menos se colocam no lugar do outro.  Uma excessiva atividade cerebral fruto da ansiedade, muitas vezes, de se impor, e da pressa em justificar seus erros e, por tanto, da necessidade em provar suas verdades. Pessoas assim são rápidas em responder, porém, de pouca convicção. Crenças limitantes também estão relacionadas à Síndrome do Pensamento Acelerado. O problema desta síndrome está relacionado com a quantidade e a velocidade de pensamentos. Essa síndrome é mais comum em pessoas que vivem sob pressão ou em estado de constante alerta. Pessoas assim tendem a estar mais conectadas a internet para não perder nada do que está acontecendo no mundo real, alimentando suas mentes incessantemente, sem nem mesmo ruminar, como diria Nietzsche. Por isso, a qualidade do pensamento fica prejudicada. O portador da síndrome pode ter dificuldade para dormir, irritabilidade, intolerância ao ser contrariado. Evite excesso de informações, não se torne escravo da tecnologia e nem de sua mente, sobretudo, cuidado com a competição predatória. O exagero de informação causa um acúmulo inconsciente na memória RAM (Registro Automático da Memória), causando hiperatividade cerebral. A paranoia em ser o número um, destrói relações e transforma a pessoa em um escravo do seu pensamento. Uma pessoa com Síndrome do Pensamento Acelerado tem mais dificuldades em lidar com suas perdas e administrar suas decepções e refletir sobre suas falhas. Pessoas com essa síndrome acreditam estarem sempre certas, não se permitindo a oportunidade de parar e refletir sobre os seus erros, para piorar a situação, pessoas assim se valem rapidamente da mente para justificar seus erros, achando que errar é humano, ou, como diria Sartre, que o errado é sempre o outro. A mente é rápida em achar justificativas. A mente, assim como a vida emocional, tornaram-se um fast-food, onde o prazer é gerado pela quantidade e não pela qualidade. No campo do pensamento tudo está dado nos livros, é só consultar o cardápio, perdão, o índice. E assim existem milhões de teorias prontas para servir a mente. O cardápio é grande, e a autenticidade é zero!

30/06/2018

ÉTICA E A FELICIDADE

Eliani Gracez


Okay, tenho que admitir, perdi para os racionalistas. Na juventude eu só queria salvar o planeta e achava que o amor e confiança entre as pessoas seria o caminho. Santa inocência! Anos depois, confesso, muitos anos depois, eu me vejo ainda como aquela inocente criaturinha que queria mudar o planeta com amor e confiança entre as pessoas. O problema não são os inocentes, o problema são aqueles que violentam os inocentes.    Viajei algumas vezes para a Austrália, um pais de primeiro mundo, só perdendo em qualidade de vida para a Suíça, no entanto, o que chama a atenção é que a Austrália, em uma medida da felicidade, está muito abaixo do esperado. Os australianos são organizados de forma que nada falte para uma boa vida. Uma mulher, depois de ganhar nenê, o estado paga para ela ficar em casa só cuidando do filho por alguns anos. Eu disse por alguns anos, e eu não me equivoquei ao escrever. Mas então, por que em uma medida da felicidade o australiano fica tão abaixo do esperado? Embora a sociedade seja estruturada com bases éticas, igualdade social e financeira, onde o trabalhador mais simples e o trabalhador mais graduado, ganham quase a mesma coisa, ainda assim o australiano não é feliz. A felicidade não está tão somente em conceber racionalmente a vida, embora, a concepção racional faça parte. A felicidade está em uma plenitude que a razão, com suas limitações, não consegue alcançar. O estado deve se organizar de forma ética, garantindo liberdade, igualdade e uma vida digna de um ser humano. Mas, nas relações interpessoais devem ser levadas em consideração não somente a ética, mas também as coisas do coração. Um equilíbrio entre razão e emoção. Um equilíbrio entre aquilo que o Estado pode nos dar em termos de organização social e as nossas subjetividades. A vida tem que ser organizada externamente, mas também internamente. Organizar a vida interna com suas subjetividade como se ela fosse um país de primeiro mundo, levando em consideração tão somente a razão, não é garantia de felicidade.

03/06/2018

A ESPERANÇA

Eliani Gracez

            A esperança não teve um lugar de destaque na tradição filosófica, raros foram os filósofos que falaram em algo que se possa remeter a esperança, e os poucos que falaram sobre o assunto o fizeram de forma subjetiva. Por isso, fundamentar racionalmente a existência ou a importância da esperança, é uma tarefa considerada não muito fácil, embora não seja ela impossível. Nos primórdios da filosofia existiam crenças em mitos, um deles era de que as Moiras traçavam o destino dos homens, até mesmo os deuses estavam sujeitos ao destino traçado por elas, e no destino não havia lugar para esperança. Nem mesmo Aristóteles, em sua Ética a Nicômaco, que tratou das virtudes, nada falou sobre esperança. Possivelmente Aristóteles não tenha considerado a esperança como sendo uma virtude, e talvez não seja mesmo. Os antigos textos gregos que falam sobre esperança estão ligados à religião e culto aos mistérios de Eleusis e culto aos mortos. O hino homérico para a Deusa Deméter cultuada em Eleusis e que perdeu sua filha sacerdotisa para Hades, o Deus da morte, fala da purificação pelos rituais sagrados e a esperança de ter uma sorte melhor no mundo dos mortos. Nesse caso, a esperança está na morte e não na vida. Com o cristianismo a esperança ganhou status de virtude, virtude esta que os filósofos não deram a ela. A “virtude” da esperança, para os fiéis, é a força motriz para a salvação na vida eterna. A fé sustenta a esperança na salvação após a morte, isso pressupõe que não haja salvação em vida. Nesse caso, a vida está perdida e só existe esperança na morte. Para conseguir a salvação após a morte é preciso sacrificar a vida atual, e regras morais rígidas devem ser cumpridas, e aqueles que vivem intensamente, ou buscam a vida na vida, são vistos como imorais e perderão a vida eterna. Tanto os mistérios de Eleusis como o cristianismo nos levam a ter esperança após a morte de uma vida plena de felicidade, tornando a vida carnal ou material uma pulsão de morte. Também é preciso lembrar que Buda dizia que não existe felicidade fora do Nirvana. Esse discurso de uma vida melhor somente após a morte nos leva a querer a morte e a ver a morte como solução para essa vida. Só morrendo é que seremos felizes. Tal pensamento aniquila com a vida e nos leva a esperar somente a morte. Esperança não é esperar, esperança é caminhar, esperança é movimento, esperança é ir atrás dos sonhos e acreditar que eles são possíveis de se realizar. A esperança, nesse caso, é uma força que sustenta a vontade de caminhar e de ir adiante. Segundo a psicanálise, a esperança é uma das forças motrizes que sustenta o desejo de continuar vivendo. O desejo conduz ao prazer e não ao desprazer. Buscamos o prazer para que não se tenha uma vida de desprazeres. Mas o cristianismo e até mesmo alguns filósofos tentam tirar do caminhante até mesmo seu desejo em caminhar, nesse caso, cortar os pulsos torna-se inevitável. O que algumas religiões e filosofias e o próprio Buda tentam fazer é o mesmo que alguns remédios para doenças psíquicas fazem, deixam a pessoa sem vontade, sem desejo, sem vida autêntica.  Não quero nesse momento negar a importância dos fármacos. Mas quem já trabalhou em um manicômio sabe como os remédios agem, tiram a voracidade e a libido da pessoa, tiram a vontade e o desejo. Esse é o sonho de muitas religiões: uma vida sem libido, sem desejo e sem vontade. Em contra partida, a pessoa não sofre, mas também não vive. Tudo isso por temer o sofrimento. Felicidade e sofrimento são dois lados da mesma moeda. Se a felicidade é passageira, também o sofrimento é passageiro. Se a felicidade é passageira isso significa que podemos perdê-la a qualquer momento. O medo da perda leva muitos a afastar a felicidade, o prazer, o desejo e a vontade, e assim não se perde o que não se tem. Somente quem é feliz pode perder a felicidade. Encontrar a paixão pelo que é possível talvez seja uma boa sabedoria. Sem paixão não há esperanças, ou, como dizia Roberto Freire, sem tesão não há solução. Mas existe um pensador que fala que o passado não pode ser definido como “um nunca mais”, porque o passado não perde a força de um dia ter sido algo. O passado está presente naquilo que somos agora. Temos então um passado-presente. Dessa dialética entre o passado e o presente nasce o que “está por vi” e que já está no presente como projeto de um futuro, assim como o passado está no presente, o presente estará no futuro.  Há no presente algo que já estava no passado e, nesse sentido, há a esperança naquilo que “está por vir”, e entre o que eu sou e o que posso ser ou vir-a-ser, reside um conflito existencial. Assim o homem aceita ou recusa o projeto existencial que o define como um ser aí no mundo. Ou assume o projeto ou se perde na desesperança de uma vida inautêntica e a pulsão de morte torna-se inevitável, e, nesse caso, somente a religião pode ajudar, dando esperança em dias melhores após a morte, onde a autenticidade da vida perde a sua potência para a esperança em uma vida melhor no pós-morte. Nesse caso, o homem se transforma em um ser para a morte, ou, algo que não mais “pode ser”, em oposição ao “vir a ser” que nos fala de uma vida autêntica e repleta de força vital. Quando o homem não se vê como um projeto que está em desenvolvimento, seja por medo do “de vir” ou por outros motivos, seu ser, sua vontade, seus desejos, deixam de se manifestar, permanecendo na vida o desprazer de viver. Eis aqui a pulsão de morte e a pulsão de vida descrita por Freud. Na clínica analítica, o analista leva a pessoa que está em pulsão de morte para a pulsão de vida. Levando ela a ver que existe um projeto de vida que está no presente, e que existe vida que flui e pulsa em seus desejos, em sua vontade, em sua libido... O ser é um ser de vontade, por isso, abrir mão da vontade é abrir mão de nós mesmos, ou do ser que carregamos e que trouxe seu corpo a este mundo. Afinal, somos um ser em experiência corpórea. Ou trazemos nosso ser para o mundo e nos afirmamos como um ser de vontade, e na vontade está o nosso poder, ou então assumimos nossa falência e passamos a viver a morte em vida e tentamos de novo na próxima. Minha visão é de vida na vida e não de viver a morte em vida. Somos seres para a vida. Somos seres de vontade no mundo, embora alguns tragam a morte para a vida, mas isso não cabe no meu conceito de vida.