05/11/2018

SONHO

Eliani Gracez 
                                                        
O sonho é uma linguagem cifrada que exige decifração. Uma imagem que só tem significado a partir do conteúdo interno do sonhador. Conteúdo mental e sentimentos que foram reprimidos e recalcados podem aflorar nos sonhos. A descoberta de Freud de que os sonhos têm um conteúdo psicológico passível de análise, foi uma revolução em termos de terapia. Os sonhos, na maioria dos casos, são desprovidos de moralidade, e por isso eles refletem aquilo que a pessoa tem de mais íntimo, oculto, escondido. Desejos reprimidos de toda ordem podem se manifestar em sonhos. Conte-me seus sonhos e eu te direi quem tu és, não quem tu pensas ser, mas sim quem tu és. No processo de civilização ou de moralização do ser humano, foram recalcados e reprimidos muitos sentimentos que se manifestam em sonhos. O conteúdo latente em um sonho se refere a pensamentos inconscientes e que subjaz ao relato, é um sentido, um significado, algo que pulsa, algo que não quer calar. Já o conteúdo manifesto é a forma pela qual o sonho se apresenta. É a história contida no sonho. Como em um filme existe uma história na qual a mensagem é comunicada. O conteúdo latente é a mensagem vinda do inconsciente, e a trama é o conteúdo manifesto.

O HOMEM QUE NÃO QUERIA CRESCER

Eliani Gracez 


Donald Woods Winnicott, pediatra e psicanalista (1896-1971) não defendia a submissão do ser humano, pelo contrário, ele enfatizava a criatividade e a capacidade de defender ideias, a partir do ritmo e do jeito de ser de cada pessoa. Especializado no mundo infantil, Winnicott estudava a criança, e não a doença que acometia a criança. Doença é consequência e não a causa, e assim ele estudava a causa da doença no psiquismo infantil. Para Winnicott, existem dois tipos de moral: uma moral pessoal e outra impessoal. A primeira, a moral pessoal, surge a partir de relacionamentos com amor e respeito mútuo. A moral impessoal surge a partir de uma exigência da família e da sociedade. E assim não precisamos impor regras de moralidade à criança quando ela for criada com afeto, respeito e amor. Ela amará e respeitará seus pais pelo cuidado e carinho que os pais dedicam a ela, não sendo necessária uma lei externa. A moral oriunda do respeito, do cuidado e do carinho, Winnicott considera a moral verdadeira, e a moral imposta a força ele considera a falsa moral. A luz da psicanálise, o mundo infantil nem sempre está tão somente ligado a criança, muitas pessoas adultas também são infantis. Esse é o caso da pessoa que não cresceu, e que possui o pensamento infantilizado, não desenvolvendo, por exemplo, criatividade. Pessoas assim, em muitos casos, se valem do pensamento de outras pessoas, ou mesmo de um pensador para defender suas teorias, tem dificuldades em fazer escolhas e tomar decisões, são imaturas e, em muitos casos, precisam da aprovação de um outro adulto para ter certeza de que estão fazendo a coisa certa. Pessoas assim, usam o que se chama de “bengala”, para conseguirem andar, porque não são capazes de andar com suas próprias pernas. Não que não se possa pedir ajuda vez ou outra, ou ter dúvidas quanto ao caminho a ser percorrido. Diferentemente disso, o adulto infantil, torna-se um problema para ele mesmo, porque não consegue crescer e se desenvolver a partir de si. Todos nós, de alguma forma, conservamos a criança interior, resta saber se essa criança é saudável. Se sua criança interior for saudável, isso significa que você foi amparado pelos pais, foi bem cuidado e brincou livre e inocentemente quando criança. Viveu em ambiente que contribuiu ao seu crescimento. Seja como for, carregamos as consequências da infância para o resto da nossa vida. Porém, como nem tudo são flores, existem casos onde o amadurecimento da criança se deu de forma insatisfatória.

SEXUALIDADE INFANTIL

Eliani Gracez  

         As tendências reprimidas que se encontram no inconsciente, segundo Freud, “trata-se quase sempre de tendências sexuais”. Um pansexualismo que ainda perpassa a obra de Freud e seus discípulos. Não vamos confundir o “quase sempre” com “sempre”. Se no inconsciente encontram-se uma parte maior de tendências sexuais do que outras tendências, isso deve-se ao fato da existência de processos inconscientes expulsos da consciência pela repressão. Os elementos que não foram reprimidos permanecem na consciência.
         Desde longa data, a sociedade e tendências religiosas, condenam a livre expressão da sexualidade. Sendo canalizada esta expressão para o casamento legal, ou seja, um único parceiro de sexo oposto e para toda a vida. Questões sobre a sexualidade são estudadas por Freud desde a infância do analisando, e assim ele afirma tendências sexuais na criança. Ao afirmar a sexualidade infantil, foi possível também afirmar a repressão sexual na criança promovida pelos pais e pela sociedade. Repressão esta que foi feita a partir de um modelo de educação opressor que não prepara a criança para a sexualidade e sim reprime a pulsão sexual desde a mais tenra idade. E assim Freud conclui que se os elementos sexuais são reprimidos desde a infância é porque eles estão lá desde este estágio. Com esta visão, fruto de dedução dialética, Freud conquistou adversários e verdadeiros inimigos, chocou o senso comum bem como os meios científicos e pedagógicos de sua época. Ele demonstrara a partir de seus estudos sobre o inconsciente que o espírito crítico e o julgamento racional do homo sapiens constituem apenas uma parte do psiquismo humano. Ao lado deste psiquismo existe uma mentalidade pré-lógica, afetiva que emana do inconsciente. Este material, muito mais pressentido, influi no raciocínio lógico. Isso significa que os medos, a repressão, a moral e a forma como uma criança é educada tem uma grande influência na racionalidade. Filósofos e médicos, contemporâneos a Freud, ao invés de procederem como pessoas de ciência, comportaram-se como o “homem da rua”. Suas observações exprimiam o preconceito da cultura e do meio social. Existe na criança uma espécie de pré-sexualidade que não se queria ver, e a curiosidade sexual da criança era reprimida.
         Para o psicanalista Abrahão Brafman, o estilo de vida de alguns pais cria problemas nas crianças. A criança se constrói a partir dos exemplos dos pais e daqueles que convivem com ela. O desenvolvimento cognitiva, intelectual e emocional da criança, afeta a visão que a criança tem de si e do mundo. Com a visão da sexualidade na criança foi possível entender melhor o adulto, pois há na criança os traços do instinto sexual. Esse instinto, quando não trabalhado adequadamente na infância, pode dar origem a perversão sexual no adulto.
         O complexo de Édipo rendeu a Freud o título de imoral. Moralistas e preconceituosos tornavam a criança assexuada. A noção de que a criança se identifica com o sexo oposto, podendo desejar sua mãe e odiar o pai, feriu sentimentos na época de Freud. Quando Freud falava de sexual seus adversários compreendiam genital. Isso em Freud é um absurdo! O adulto sente o impulso sexual e toma consciência dele, do objetivo e do objeto, a criança sente o impulso sexual, mas não toma consciência dele.
         Quanto a extensão do termo sexualidade, que foi frequentemente criticado, um simples olhar para a teoria freudiana nos dá a percepção de que o termo abrange mais do que sexo genital. O amor maternal, a ternura, a fraternidade e amizade, derivam da sexualidade. Embora Freud não quisesse afirmar que a amizade, amor, ternura e fraternidade fossem em si elementos sexuais, mas sim que derivam do instinto sexual, da libido e que estavam deslocados ou transformados no psiquismo.
        Para conhecer um pouco mais sobre o complexo de Édipo é preciso remeter ao esquema conforme Freud o concebeu nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, que tratam de forma clara sobre o pensamento freudiano.
             I - Apego da criança em relação a mãe ou parente de sexo oposto ao seu.
           II - Hostilidade e ciúme, em relação ao pai ou parente de mesmo sexo, decorrente do primeiro processo.
           III - Sentimento de admiração e de afeição em relação ao parente de mesmo sexo e que se superpõe aos sentimentos hostis e cria ambivalência.
          IV - Sentimento de culpa, geralmente inconsciente e que são o cerne da hostilidade experimentada.
         Assim o menino amará sua mãe e sentirá ciúmes do pai, considerado no inconsciente como seu rival. No entanto, ao mesmo tempo, ele admira a força do pai. O mesmo acontece com a menina que amará seu pai e verá a mãe com hostilidade.
        O complexo de Édipo existe em todas as crianças. Se elas conseguirem eliminá-lo, normalmente esse é o caso, terão chances de não terem dificuldades ou transtornos sexuais. Do contrário estará aberta a porta para as neuroses. É a partir do complexo de Édipo que a sexualidade no adulto começa a tomar forma. O primeiro amor da menina é pelo pai, e deste amor derivam os demais na faze adulta. Mas para isso é preciso vencer o complexo de Édipo e substituir a sexualidade infantil pela sexualidade adulta. O adulto sente o impulso sexual e toma consciência dele e de seus objetivos. A criança sente um impulso semelhante a do adulto mas não toma consciência dele. Quando um adulto sente um impulso sexual, múltiplas formas de representações, jogos sexuais e suas consequências tomam conta da consciência. Nada disso acontece com a criança.
      O preconceito de pessoas que não queriam ter seu inconsciente revelado e que sustentavam uma criança pura, angelical e assexuada levou a acusação de um Freud imoral. No entanto, o pensamento freudiano está embasado no amor maternal, na ternura filial e a amizade que derivam da sexualidade. As relações que unem a mãe e a criança, de certa forma e as relações sociais entre os indivíduos, são ligações amorosas.

04/11/2018

A CULPA É DAS ESTRELAS

Eliani Gracez 

Lembro que no passado amávamos nossos professores. Eles pareciam tão sábios e inteligentes, e nós, crianças vorazes de aprendizado e de afeto. Ser afetado por alguém que parecia saber mais do que a criança podia imaginar, era a máxima de um professor. A disciplina era rigorosa, bastava um olhar e já sabíamos o que estava acontecendo. O mundo interior, ou, o mundo da subjetividade, era preservado e mantido em segredo. No entanto, não sei dizer se o passado é melhor do que os dias de hoje, onde tudo ou quase tudo nos foi revelado. O tempo da ilusão passou e talvez os dias de hoje deixem mais claro quem são as pessoas, não que o passado não as revelassem, apenas que a revelação se fazia de outra forma. Devemos muito ao rigor do passado o surgimento de instituições secretas. No rigor moral o oculto se instala, mas, nos dias de hoje, onde quase tudo é permitido, o oculto se revela. Tudo é uma questão de escolhas e não mais de necessidade moral, ou nos ocultamos ou nos revelamos. Bom! Como se diz por aí, nos dias de hoje tem muita gente saindo do armário, outros tantos permanecem no armário. O bom da história é que hoje temos opção de escolha. Opção que não existia no passado. Hoje, quem não quer sair do armário opta pelo passado, os demais escolhem o caminho da mudança. Seja qual for tua escolha, que seja para a felicidade, pois para a infelicidade é que não nascentes. Que seja não somente para a tua felicidade, mas também para aqueles que tu ama. Eis a ética da felicidade: eu não quero a felicidade somente para mim, também quero para aqueles que eu amo. Mas isso seria ético? Não, pois aqueles que eu não amo tanto quanto amo alguns, também merecem a felicidade. Lembro, certa vez, quando eu era ainda uma estudante de filosofia, conversando com um professor eu disse que eu não queria o céu somente para mim, eu queria o céu também para as demais pessoas. Meu professor respondeu, o céu não seria o céu se lá estivéssemos sozinhos. A época de estudante eu chamo de época do idealismo e da ilusão. Hoje, onde pouca coisa sobre a subjetividade humana não foi ainda revelada, eu chamo de época do realismo e de escolhas não ilusórias. O que as estrelas têm a ver com tudo isso? Sempre se pode culpar as estrelas por aquilo que não entendemos. Que todos os seres sejam felizes, já foi a máxima da minha ética. Hoje, com todo mal revelado, talvez eu pense como a canção que diz não desejamos mal a quase ninguém. Quase ninguém...

O ADOECER

Eliani Gracez

O adoecer e a reorganização da psique tornaram-se assim uma possibilidade terapêutica que encoraja o neurótico a superar seus conflitos, entre a pulsão e a saúde psíquica, ao trazer a luz os impulsos inconscientes reprimidos ou recalcados. O adoecer do neurótico está vinculado a uma situação patológica de frustração das pulsões e repressão da libido, sendo assim, o adoecer é consequência e não a causa de um transtorno patológico. Causas prováveis de neurose: rigidez moral que causa recalque na infância, frustrações, falta de amor, desestrutura familiar, rigidez ética imposta pela sociedade. A repressão e mecanismos coercitivos da sociedade são fomentadores de conflitos, por exemplo, a libido versus ideal acético. E assim se instala uma luta entre dois impulsos gerando a doença ou neurose. Não vamos aqui confundir a luta entre duas polaridades que acontece na hora em que o indivíduo tem que fazer uma escolha, mas sim entre o ego e aquilo que muitas vezes ficou recalcado no inconsciente, uma verdadeira luta entre a doença e sua causa. A luta só pode ser vencida quando os dois oponentes se encontram em campo de batalha, onde um pode ver o outro, a luta acontece no consciente. E assim a neurose e sua causa se encontram para a solução do conflito instalado. Desse confronto surge de alguma forma uma solução para o neurótico. Uma luta consciente da causa e seu subsequente efeito. 

O HOMEM DOS RATOS

Eliani Gracez

            O homem dos ratos é o nome dado a um trabalho publicado por Freud sobre um paciente com neurose obsessiva. O homem dos ratos procurou Freud porque ele acreditava que algo de desagradável iria acontecer com seu pai e a uma mulher que ele tinha admiração. Freud realizou descrições ricas e precisas de rituais e obsessões que seu paciente apresentava, buscando interpretá-los à luz de suas teorias. O paciente, um jovem de educação universitária, apresentou-se a Freud com a queixa de obsessões desde sua infância, mas com uma maior intensidade nos últimos quatro anos de sua vida. Além dos temores com as duas pessoas que ele mais amava, o homem dos ratos tinha também impulso como, por exemplo, cortar sua garganta com navalha. Ele relata que é como se fosse uma voz nítida dizendo o que ele deveria fazer. No dia em que sua amada iria partir, caminhando pela estrada, retirou uma pedra para que a carruagem com a moça ao passar pelo lugar da pedra não sofresse nenhum acidente. Contudo, pouco depois, pensou que a ideia era um absurdo, e sentiu-se obrigado a voltar e colocar a pedra no lugar onde ela havia sido retirada. A experiência que deu origem ao título "O homem dos ratos", se deu quando um oficial descreveu, ao homem dos ratos, uma forma de castigo onde o prisioneiro ficava sentado nu, amarrado sobre um recipiente contendo ratos, que buscavam escavar seu ânus procurando uma saída. Tal pensamento passou a invadir sua mente sem que fosse capaz de evitá-lo, passou a pensar que isso poderia acontecer com seu pai, embora já falecido, e com a moça que ele amava. Quando mais jovem, o homem dos ratos temia a morte do pai, passado um tempo, mesmo depois quando seu pai já estava morto, ainda assim ele temia que algo acontecesse a seu pai. Por mais que ele tivesse repudio e tentasse afastar os pensamentos a obsessão e o sentimento de culpa permaneciam, embora vários tratamentos tenham sido feitos, porém todos sem êxito. O homem dos ratos temia que algo acontecesse a seu pai por ele não ter pago uma dívida por conta de um óculos que ele precisou comprar no tempo da guerra e não conseguia pagar o frete. Ele também se considerava um covarde desde criança. Criando toda uma neurose sobre uma dívida impagável até que ao pegar um trem para Viena manda uma carta ao posto do correio com o pagamento da dívida.
            Freud concentrou sua análise em duas questões com o mesmo valor para o homem dos ratos, o pai e a amada. A intensidade dos sentimentos para com a mulher que ele cortejava e a raiva contra o pai. O simbolismo dos ratos levou Freud e seu analisando a associações que foram desde de o erotismo até lembranças de quando o homem dos ratos eliminava lombrigas na infância e lembranças de quando ele fora espancado pelo pai por ter mordido uma pessoa aos quatro anos de idade. Entre as associações realizadas a partir da forma de pensar do analisando, destacaram-se o perfeccionismo, a dificuldade de conviver com a incerteza, necessidade de controle. Ao retirar a pedra do caminho onde a carruagem de sua amada iria passar, queria ele ter a certeza de que nada de mal iria acontecer com a moça, como se a vida dela estivesse em suas mãos naquele momento. Entre outras observações era possível perceber o distanciamento dos afetos e obediência ao pai. O homem dos ratos culpava-se pela morte do pai devido a severidade com que ele o tratava. Culpando-se por odiá-lo quando deveria amá-lo.  O discurso do amor ocultava o ódio. O homem dos ratos se anulava diante da vontade paterna. Seu Pai queria que ele se casasse por dinheiro e não por amor. O pai era um homem colérico e muito severo com seus filhos, casou-se também por dinheiro. Freud pesquisa então o desejo de morte do pai, embora o homem dos ratos afirmasse amar seu pai acima de tudo. O amor era a condição do recalcamento do ódio. Com a rigidez em que fora criado, um superego forte e o recalcamento de sentimentos desde a infância, manifestaram-se neuroses e um comportamento de obsessão compulsiva. O rato lembra sujeira e morde, o homem dos ratos quando criança mordia também, e assim Freud descreveu em seu trabalho com o homem dos ratos sintomas relacionados com o ânus, fezes e defecção. Este é um caso onde a terapia pela fala evidencia o significado e significante. Tudo gira em torno do significado de ratos, casamento, acasalamento e dívida.
            A morte da irmã, esquecida pelo homem dos ratos, faz lembrar-se de um encontro precoce com a morte, ele tinha pouco mais de três anos quando sua irmã morreu. Existe, nesse caso, uma ligação entre a morte da irmã e o desejo por uma mulher indefesa.     Após um ano de análise o analisando curou-se de seus sintomas. Segundo Freud o delírio dos ratos desapareceu. Freud descreveu detalhadamente os sintomas do transtorno obsessivo compulsivo, obsessões, compulsões, anulação que são válidos até os dias de hoje. Embora nunca tenha sido comprovada a existência do inconsciente, Freud deixou um legado transcrito das seções com o homem dos ratos que até hoje são estudados.  Diferente da Histeria, a obsessão é um pensamento, um nexo causal. Por exemplo: se meu pai fosse vivo ele me puniria e eu me revoltaria contra ele e ele morreria por isso. Como se o pensamento tivesse todo esse poder.

O ANIMAL RACIONAL

Eliani Gracez

O ser humano busca em medicamentos a cura para a tristeza, para o vazio existencial, o tédio e a falta de sentido para sua existência. E com isso toma medicamentos para o medo, angústia, solidão, insônia etc. Longe de contestar a utilidade dos fármacos e de sua importância em casos específicos, no entanto, por exemplo, eles não trazem a cura para a infelicidade ou para o desamparo humano. O fato de sermos civilizados não quer dizer que tenhamos desenvolvido afetos ou amorosidade suficiente que garantam à felicidade ou uma boa qualidade de vida emocional. Talvez, estejamos nos inspirando, mesmo que de forma inconsciente, na civilização criada por Aldous Huxley, em seu livro Admirável mundo novo, onde os governantes criaram o Soma, a pílula da felicidade. Basta uma pílula por dia e a felicidade é tanta que ninguém contesta o sistema. Quanto mais civilizado mais adestrado é o homem, e quanto menos civilizado mais se assemelha ele ao animal. Não  alcançamos o equilíbrio entre o animal e a socialização. E assim, a única solução encontrada por animais intelectuais para viverem juntos foi a civilização ditatorial, imposta a qualquer preço. Um conjunto de leis, regras, moral, etiqueta que doutrinaram e castraram o animal, esquecendo-se totalmente que esse animal intelectual também possui coração, sente dor e sofre. Quanto mais civilizados mais adestrados são os seres humanos, porque aprendem rapidamente a ocultar seu verdadeiro Eu. Tudo isso porque se esconder na noite é bem mais fácil do que andar erguido durante o dia. Em meio a isso, cada pessoa reivindica a sua singularidade, recusando-se a rótulos universais. E assim, falsamente, pensamos o individualismo como sendo o caminho para a liberdade, e, aliados ao adestramento, julgamos ter felicidade. No mundo da aparência e da opinião, até a libido é potencializada artificialmente, e com isso aumenta o consumo de remédios antidepressivos, drogas e bebida alcoólicas que dão, junto ao individualismo, a sensação de liberdade e consequente felicidade, não tendo com isso a "humana criatura" uma identidade oriunda da sua consciência, e do seu verdadeiro Eu. Nem se quer percebe que muitas vezes está sendo conduzido pelo inconsciente coletivo. Nem mesmo nos damos de conta que o remédio receitado para uma pessoa é o mesmo receitado para muitos e na mesma medida. E isso nos enquadra em um grupo de pessoas que possuem os mesmos sintomas. A contradição é que quanto mais nos tornamos individualistas, mais aumentam os grupos sociais como forma de afirmação e necessidade de ser aceito socialmente. Perdemo-nos em um labirinto entre o individualismo e a procura por aceitação social, mesmo que esta aceitação seja superficial e movida pela aparência. Eis o ser humano, um dualista que transita entre o egoísmo, fruto de seu individualismo, e a necessidade de aceitação em um grupo social. Esse dualismo dá origem a angústia e a algumas neuroses que, por falta de conhecimento de si mesmo e de sua dualidade, o homem procura o mais fácil, o Soma! Somos racionais sim, mas será que esta racionalidade é sinal de inteligência? Ou será que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa e estamos confundindo as coisas?