A
esperança não teve um lugar de destaque na tradição filosófica, raros foram os filósofos
que falaram em algo que se possa remeter a esperança, e os poucos que falaram
sobre o assunto o fizeram de forma subjetiva. Por isso, fundamentar
racionalmente a existência ou a importância da esperança, é uma tarefa
considerada não muito fácil, embora não seja ela impossível. Nos primórdios da
filosofia existiam crenças em mitos, um deles era de que as Moiras traçavam o
destino dos homens, até mesmo os deuses estavam sujeitos ao destino traçado por
elas, e no destino não havia lugar para esperança. Nem mesmo Aristóteles, em
sua Ética a Nicômaco, que tratou das virtudes, nada falou sobre esperança.
Possivelmente Aristóteles não tenha considerado a esperança como sendo uma
virtude, e talvez não seja mesmo. Os antigos textos gregos que falam sobre
esperança estão ligados à religião e culto aos mistérios de Eleusis e culto aos
mortos. O hino homérico para a Deusa Deméter cultuada em Eleusis e que perdeu
sua filha sacerdotisa para Hades, o Deus da morte, fala da purificação pelos
rituais sagrados e a esperança de ter uma sorte melhor no mundo dos mortos.
Nesse caso, a esperança está na morte e não na vida. Com o cristianismo a
esperança ganhou status de virtude, virtude esta que os filósofos não deram a
ela. A “virtude” da esperança, para os fiéis, é a força motriz para a salvação
na vida eterna. A fé sustenta a esperança na salvação após a morte, isso
pressupõe que não haja salvação em vida. Nesse caso, a vida está perdida e só
existe esperança na morte. Para conseguir a salvação após a morte é preciso
sacrificar a vida atual, e regras morais rígidas devem ser cumpridas, e aqueles
que vivem intensamente, ou buscam a vida na vida, são vistos como imorais e
perderão a vida eterna. Tanto os mistérios de Eleusis como o cristianismo nos
levam a ter esperança após a morte de uma vida plena de felicidade, tornando a
vida carnal ou material uma pulsão de morte. Também é preciso lembrar que Buda
dizia que não existe felicidade fora do Nirvana. Esse discurso de uma vida
melhor somente após a morte nos leva a querer a morte e a ver a morte como
solução para essa vida. Só morrendo é que seremos felizes. Tal pensamento
aniquila com a vida e nos leva a esperar somente a morte. Esperança não é
esperar, esperança é caminhar, esperança é movimento, esperança é ir atrás dos
sonhos e acreditar que eles são possíveis de se realizar. A esperança, nesse
caso, é uma força que sustenta a vontade de caminhar e de ir adiante. Segundo a
psicanálise, a esperança é uma das forças motrizes que sustenta o desejo de
continuar vivendo. O desejo conduz ao prazer e não ao desprazer. Buscamos o
prazer para que não se tenha uma vida de desprazeres. Mas o cristianismo e até
mesmo alguns filósofos tentam tirar do caminhante até mesmo seu desejo em
caminhar, nesse caso, cortar os pulsos torna-se inevitável. O que algumas
religiões e filosofias e o próprio Buda tentam fazer é o mesmo que alguns
remédios para doenças psíquicas fazem, deixam a pessoa sem vontade, sem desejo,
sem vida autêntica. Não quero nesse
momento negar a importância dos fármacos. Mas quem já trabalhou em um manicômio
sabe como os remédios agem, tiram a voracidade e a libido da pessoa, tiram a
vontade e o desejo. Esse é o sonho de muitas religiões: uma vida sem libido, sem
desejo e sem vontade. Em contra partida, a pessoa não sofre, mas também não
vive. Tudo isso por temer o sofrimento. Felicidade e sofrimento são dois lados
da mesma moeda. Se a felicidade é passageira, também o sofrimento é passageiro.
Se a felicidade é passageira isso significa que podemos perdê-la a qualquer
momento. O medo da perda leva muitos a afastar a felicidade, o prazer, o desejo
e a vontade, e assim não se perde o que não se tem. Somente quem é feliz pode
perder a felicidade. Encontrar a paixão pelo que é possível talvez seja uma boa
sabedoria. Sem paixão não há esperanças, ou, como dizia Roberto Freire, sem
tesão não há solução. Mas existe um pensador que fala que o passado não pode
ser definido como “um nunca mais”, porque o passado não perde a força de um dia
ter sido algo. O passado está presente naquilo que somos agora. Temos então um
passado-presente. Dessa dialética entre o passado e o presente nasce o que “está
por vi” e que já está no presente como projeto de um futuro, assim como o
passado está no presente, o presente estará no futuro. Há no presente algo que já estava no passado e,
nesse sentido, há a esperança naquilo que “está por vir”, e entre o que eu sou
e o que posso ser ou vir-a-ser, reside um conflito existencial. Assim o homem
aceita ou recusa o projeto existencial que o define como um ser aí no mundo. Ou
assume o projeto ou se perde na desesperança de uma vida inautêntica e a pulsão
de morte torna-se inevitável, e, nesse caso, somente a religião pode ajudar,
dando esperança em dias melhores após a morte, onde a autenticidade da vida
perde a sua potência para a esperança em uma vida melhor no pós-morte. Nesse
caso, o homem se transforma em um ser para a morte, ou, algo que não mais “pode
ser”, em oposição ao “vir a ser” que nos fala de uma vida autêntica e repleta
de força vital. Quando o homem não se vê como um projeto que está em
desenvolvimento, seja por medo do “de vir” ou por outros motivos, seu ser, sua
vontade, seus desejos, deixam de se manifestar, permanecendo na vida o
desprazer de viver. Eis aqui a pulsão de morte e a pulsão de vida descrita por
Freud. Na clínica analítica, o analista leva a pessoa que está em pulsão de
morte para a pulsão de vida. Levando ela a ver que existe um projeto de vida
que está no presente, e que existe vida que flui e pulsa em seus desejos, em
sua vontade, em sua libido... O ser é um ser de vontade, por isso, abrir mão da
vontade é abrir mão de nós mesmos, ou do ser que carregamos e que trouxe seu
corpo a este mundo. Afinal, somos um ser em experiência corpórea. Ou trazemos
nosso ser para o mundo e nos afirmamos como um ser de vontade, e na vontade
está o nosso poder, ou então assumimos nossa falência e passamos a viver a
morte em vida e tentamos de novo na próxima. Minha visão é de vida na vida e
não de viver a morte em vida. Somos seres para a vida. Somos seres de vontade
no mundo, embora alguns tragam a morte para a vida, mas isso não cabe no meu
conceito de vida.
03/06/2018
02/06/2018
DA RETÓRICA À VERDADE
A
Retórica é o uso da linguagem para argumentar de forma persuasiva. A Retórica formou
oradores, políticos, advogados, filósofos e escritores que defendem sua razão,
paixão e crenças. A Retórica tem sua origem por volta do século V antes de
Cristo, com o sofista Górgeas, Protágoras, Empédocles, Sócrates entre outros. Na
antiga Grécia, os sofistas eram contratados para defender acusados de algum
crime ou de um roubo ou coisas do tipo. Embora a relação dos sofistas com a verdade fosse outra, um bom discurso ou uma boa retórica pode não ter nada a ver
com a verdade. Nos dias de hoje, quando dizemos que uma pessoa tem “boa
Retóriaca”, embora o termo pareça redundante, mas o fato é que ele é usual, ou,
que o discurso de alguém é retórico, estamos dizendo que o discurso não tem
nada a ver com a verdade. Em termos de psicanálise, uma Retórica pode ser usada
para esconder uma verdade. Nesse momento eu sempre me pergunto, o que a pessoa
está escondendo atrás de um belo discurso decorado?! Em muitos casos, pela
Retórica vê-se aquilo que o retor quer ocultar. A verdade pode estar
inversamente proporcional ao discurso. Mas isso já é uma questão de lógica, lógica
esta tão estudada quanto a Retórica para se obter um bom discurso. Para ocultar
uma verdade uma lógica deve permear o discurso, onde uma argumentação leva a
outra argumentação com conceitos bem explicitados. Muitos confundem lógica com
verdade, e ainda dizem: tem lógica, ou, faz sentido, esquecendo-se de que a
falsidade ou a mentira também contém lógica e raciocínio, assim como contém inteligência
na maldade. Portanto, só porque contém lógica e inteligência, e muitas vezes a
lógica da Retórica é a própria inteligência, não quer dizer que seja um bem.
Não vamos confundir bem com bom. Afinal, nem tudo que é bom faz bem. Por isso existe divergência entre os filósofos
sobre se os sofistas são ou não são filósofos. Seja como for, a Retórica é
fundamental para comunicar uma sabedoria. E assim a Retórica não é boa nem má, depende
da índole de quem a usa, depende dos objetivos que uma pessoa de boa ou má índole
quer alcançar. Um bom exemplo disso é Hitler que encantou pessoas com um
discurso forte acompanhado de gestos de quem já venceu. Me contem, venceu o quê?
Licença poética a parte, entre os medievais a Retórica passou a fazer parte das
artes liberais ou Trivium, estudos sobre lógica, gramática e retórica, e mais
tarde a Retórica passou a ser usada também no discurso escrito.
01/06/2018
CRENÇAS LIMITANTES
Eliani Gracez
Nossas crenças determinam nossas ações. Para
mudar o comportamento é preciso primeiro mudar de crença. A formação de crenças
está diretamente ligada ao lugar onde fomos criados, a família, a sociedade, e,
nos dias de hoje, a mídia entre outros. Em muitos casos, nossas crenças foram
construídas de forma inconsciente. Cremos em algo sem nem mesmo questionar o
impacto da crença na nossa vida. Uma criança com dificuldade no aprendizado
pode ter ouvido de alguém que ela é burra, e por isso cresceu acreditando ser
incapaz de aprender. Formamos crenças quando acreditamos ser verdade algo que
em muitos casos a pessoa nem se quer parou para pensar sobre o assunto, em
outros casos, a pessoa parou, pensou e encontrou uma justificativa para
considerar a crença verdadeira, ou seja, encontrou bons motivos para crer. A
verdade está muito além de bons motivos ou de uma justificativa para crer.
Devido a necessidade de certezas, porque admitir nossos erros dá muito
trabalho, permanecemos na mesmice e limitados por falsas crenças. Esse é um
entre outros motivos pelo qual o prisioneiro da caverna de Platão não consegue
se libertar de suas amarras. Falamos sobre o prisioneiro da caverna no artigo
intitulado “A caverna de Platão”. Platão defende que o conhecimento parte de
uma crença. Segundo ele não é possível ter conhecimento sobre algo que não
cremos ser verdadeiro. Portanto, crer na existência de uma verdade é princípio
primeiro para o conhecimento desta verdade. Vamos lá...pensem comigo: se
existem crenças verdadeiras, e se isso for uma verdade, o oposto também é
verdadeiro, portanto, é verdade que existem crenças falsas. Assim sendo, os
dois opostos são verdadeiros. Continuando com o nosso raciocínio, a crença tem
que estar justificada pela razão. Nesse momento eu paro e penso: “santa
paciência!” Já imaginaram se cada crença minha eu tivesse que submetê-la a esse
processo longo e racional para descobrir se minhas crenças são falsas ou
verdadeiras? Como está entre as minhas crenças que somos maiores do que nossa
razão, embora muitos ainda sejam limitados pela razão, a pergunta que não quer
calar é: estaria a verdade limitada a razão? Nesse caso, somente o que contém
lógica seria verdadeiro ou existe a verdade do irracional e do inconsciente?
Poderiam existir verdades invisíveis à razão? E se nossa razão estiver atrelada
a pequenez humana e por isso verdades maiores que nossa pequenez não possam ser
vislumbradas e por isso ainda o pequeno ser humano em sua soberba pense que só
existe aquilo que ele pode conceber racionalmente ou ainda perceber com os
sentidos? Okay, voltemos as nossas crenças limitantes, como eu disse
anteriormente, somos maiores que nossa razão. Seria esta afirmação uma crença
falsa ou verdadeira? Como a verdade é relativa, porque a verdade de uma pessoa
pode ser a falsidade de outra, tudo é possível. Mas pensar que tudo é possível
seria uma crença falsa ou verdadeira? Como o que está em questão são as crenças
limitantes, esta é uma crença não limitante que está aberta ao mundo das
possibilidades. Esse é o cerne da nossa questão, crenças limitantes impedem o
crescimento e a possibilidade de crescer, impedem a felicidade, a liberdade,
inclusive liberdade de expressão. Crenças limitantes impedem o fluir da vida.
Vamos então dividir em dois grupos nossas crenças. Crenças limitantes ou
limitadoras e crenças facilitadoras. Crenças facilitadoras são aquelas que
impulsionam o sucesso pessoal e profissional, onde o indivíduo acredita no seu
potencial e na capacidade de aprender e crescer, acredita na capacidade de
superação das dificuldades do dia a dia. Enquanto isso, crenças limitadoras
limitam o potencial e reduzem o mundo das possibilidades a um caroço de
amêndoas. Portanto, a crença de que somos maiores do que nossa razão não é uma
crença limitante, mas sim uma crença que leva a conhecer cada vez mais e mais
coisas, e conduz ao crescimento pessoal, profissional, intelectual etc. Seriam
crenças limitantes ou limitadoras verdadeiras? Se elas limitam pessoas
impedindo o crescimento, aprendizado, limitam a pessoa uma ignorância muitas
vezes sem fim e a falta de conhecimento até mesmo sobre a falsidade ou a
veracidade, nesse caso, então, as crenças limitadoras são crenças falsas. Questione-se
em que área de sua vida você gostaria de melhorar seu desempenho, mas não
consegue. Por trás disso tem uma crença limitante, uma crença que impede seu
crescimento, uma crença que te nivela por baixo. Seria esse o teu lugar ou só
estás nivelado por baixo por que crês nisso?
31/05/2018
Gênio Indomável
Eliani Gracez
Segundo Clarissa Pinkola Estés, Toda mulher tem anseio pelo que é selvagem. “Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem decididamente quatro patas.” A mulher é indomável, mesmo que ao longo do tempo tenha sofrido um excessivo adestramento. Meu gênio é indomável, pavio curto, instintiva, farejadora, gosto do olho no olho! A terra espiritual da mulher selvagem é minha terra. Não tenho medo da morte, temo viver sem ela, o que seria da vida sem mudança. Mas quem compreende uma loba?, todos preferem a adestrada criatura, afinal, ela é dócil e obediente. Eu...obediente?! Nem pensar! Está para nascer quem irá me adestrar. A mulher selvagem e os lobos foram temidos pelos homens, temidos pelo seu poder, o poder da noite, da lua, do uivo e do olhar hipnótico. A mulher loba desobedece as regras, ela tem uma vida vibrante no mundo interno e externo. A força da mulher vem dessa loba interior. A mulher selvagem luta por outras mulheres, ela resgata o feminino, mesmo sendo rotulada, violentada e chamada de louca. A loba encontra sua matilha e ocupa seu corpo com segurança e orgulho, e sabe cuidar de si. De mim cuido eu! A mulher selvagem está por trás de toda escritora, pensadora, dançarina... Nossa arte é visceral. A mulher selvagem sabe sentir, pensar e amar. Ela é quem se enfurece diante da injustiça, ela é quem traz um filho ao mundo, ela é quem nos mantém vivas. Mas tem quem prefira a outra, adestrada e polida
19/05/2018
O MENTIROSO
Eliani
Gracez
Na
psicanálise a mentira é uma distorção do conteúdo psíquico a ser analisado. Contar
uma verdade requer coragem para o enfrentamento com a realidade da vida, coragem
essa que nem todos possuem, por isso, aparentemente, é mais fácil mentir. Nem
todos estão preparados para o enfrentamento nu e cru com a verdade. Nietzsche se
perguntava: quanta verdade sou capaz de suportar? A mentira pode se tornar patológica quando o
analisando tende a se expressar pela mentira compulsivamente. Essa compulsão
pode se manifestar em pequenas ou complexas inverdades. Muitas vezes, a pessoa
não tem o menor controle sobre a compulsão, mentindo até mesmo nas coisas mais
banais do dia a dia. Por trás dessa compulsão pode ser encontrada uma baixa
autoestima ou até mesmo uma onipotência narcísica. No narcisismo, mãe e bebê estão em uma situação psíquica onde
persiste um forte grau de fusão, uma não diferenciação um do outro por parte do
bebê. Quando o bebê sai da fase simbiótica, ele inicia a fase de separação e
diferenciação do eu com relação ao outro. Uma diferenciação entre o bebê e sua
mãe. Desta forma se dá o nascimento psicológico da criança. Na fase simbiótica
o bebê acredita que os atos de sua mãe é fruto do seu desejo. E assim se forma
no bebê a ilusão de que todos estão ali para ele e somente para ele. Uma ilusão
se forma onde o bebê é a majestade e os outros seus súditos. Essa onipotência,
em alguns casos, permanece
até a fase adulta, onde as pessoas que rodeiam a pessoa onipotente estão ali
para servi-la. O narcisista não lida bem com a frustração e se torna agressiva
quando confrontada. Outro tipo de mentiroso é aquele que mente para sustentar
um status que, por vezes, ele não possui. Mente para parecer ser aquilo que de
fato não é. O mentiroso também pode mentir pelo prazer de ver uma pessoa se dar
mal. Uma psicopatia onde pessoas assim não têm pudor algum. Tratando o outro
como objeto para impor sua vontade. O mentiroso, na maioria dos casos, trava
uma luta para manter sua autoestima e o medo de ser rejeitado. A necessidade de
autoafirmação, de ser aceito em um grupo social ou de ser popular entre colegas
de uma escola são motivos para uma pessoa insegura mentir. No setting analítico
(consultório) é preciso diferenciar o que é mentira, fantasia e delírio,
daquilo que de fato está acontecendo. A fantasia é um processo de imaginação de
como poderia ser a realidade. Uma pessoa pode imaginar que um fato aconteceu de
uma forma quando na realidade aconteceu de outra forma bem diferente. Já o
delírio é fruto de uma confusão mental, podendo ser acompanhado de alucinações
visuais. Nesse caso, a pessoa não está mentindo, ela apenas retrata visões
ilusórias existentes somente em seu psiquismo. Mas voltemos ao mentiroso. A
mentira pode ser uma resistência que a pessoa tem em aceita a realidade ou em
trabalhar o problema em si. Uma fuga do enfrentamento com a realidade. O
fenômeno da resistência tem sido observado desde os primórdios da psicanálise e
continua sendo considerado a pedra angular na prática analítica. Motivo pelo
qual, a resistência ainda continua sendo estudada em seus mais variados
prismas. O pensamento lógico e organizado pressupõe um ego forte e capaz de
tolerar tensões, mas nem todos possuem essa força. E sempre que a realidade impõe
eventos desagradáveis, aquele que não possui um ego forte, prefere a mentira ao
enfrentamento com sua realidade. Nesse caso, a mentira torna-se um mecanismo de
defesa onde a realidade é negada. E assim temos a mentira como um mecanismo de
defesa e de negação da realidade. Alguns mentem por compulsão, outros mentem
para tirar vantagens de uma situação. Na política é possível encontrar a
mentira como uma atuação profissional. Verdadeiros atores que fazem a mentira
ter o valor de uma verdade. A mentira usada politicamente pode ser fundamentada
em Platão e Maquiavel. Platão, no livro A república, dizia que o governante
poderia mentir para o bem coletivo. Em o príncipe, Maquiavel afirma que o
governante deve agir segundo a moral sempre que possível, mas deve infringi-la
quando for necessário para a manutenção do poder. Assim a mentira pode ter
várias causas: receio das consequências, insegurança, maldade, baixa da
autoestima, isenção de culpa, razões patológicas etc.
18/05/2018
COISAS DO CORAÇÃO
Desde
que Nietzsche disse que errar era humano, demasiado humano, nos valemos dessa
prerrogativa para justificar nossos erros, esquecendo-nos, ainda, que em
Nietzsche, o homem tem que superar o próprio homem. O homem, nesse caso, é o
ser humano, limitado, falível, que vive de aparência. O homem é aquele que vive
de ilusão, com ou sem estudo, analfabeto ou doutorado. Sendo um prisioneiro da
caverna de Platão ou pensando já ter se livrado da sua caverna. Mas, para que aconteça
a superação proposta por Nietzsche, tem o homem que conhecer sua verdadeira
essência. Devemos sempre perguntar pela essência, pois atrás da aparência
reside a essência, sobretudo a essência do mal travestida de bom samaritano. Conhecendo
a essência é que vemos com quem estamos lidando. Mas o grande problema é que a
essência se esconde atrás da aparência e da personalidade. Ela se esconde atrás
do moralismo das instituições, atrás da educação ou falta de educação, ela se
esconde atrás da formação religiosa e familiar. Tudo isso molda a personalidade,
ou, o jeito de ser de cada pessoa. A
aparência ilusória, finita e mutável, esconde a verdade sobre a essência de
potencial ilimitado, seja para o bem ou para o mal, é possível não se ter
limites para a maldade, assim como não se pode botar um limite para o amor. Limitar
o amor é estabelecer o que pode ser amado e o que não pode, bem como
estabelecer a intensidade do amor, isso seria o mesmo que dizer que só se pode
amar um pouco, mas não intensamente. Para
piorar a situação, a criatura humana não se importa com seus erros, achando
tudo simplesmente humano. Não se importa com o sofrimento daqueles que vêm ao
mundo para fazer a diferença, Buda, Jesus... Confunde o problema com a solução.
Confunde anjo com demônio. Isso tudo porque a razão serve a dois senhores, o
senhor do bem e o senhor do mal. Afinal, o mal tem lá sua razão de ser. O ser
humano é um ser de razão com possibilidade de superar a própria razão e se
tornar um ser de amor. A razão divide em dois opostos. O amor une duas metades.
A razão separa, quantifica e qualifica o humano. A mente trabalho como um computador
a partir de uma lógica. Pessoas prontas para amar aceitam as diferenças entre ele
e o outro com tranquilidade. Pessoas sem amor contabilizam as diferenças e
apoiam somente quem pensa como eles e sente como eles. O diferente é o outro, é
o “não eu”, é tudo aquilo que eu não sou. Colocando assim um abismo entre ele e
quem ele pensa estar do outro lado, somente porque não é igual a si mesmo. A
razão é o que nos separa, o amor é o que nos une. A razão faz uma lista das
diferenças. O amor só quer amar e pronto. Essa humanidade ainda não aprendeu o
que nos une, mas aprendeu o que nos separa, somo diferentes uns dos outros sim,
ainda bem. Já imaginaram se todos fossem semelhantes a uma frota de carros da
mesma marca e da mesma cor? A humanidade não mudou, continua a mesma desde o
passado até hoje, não está pronta para o diálogo educado e fraternal, como se
diz por aí, com a mente aberta e sem pré-juízos moldados por aparência ilusória.
Não está preparada para sentir o coração do outro pulsando, muito menos para respeitar
os sentimentos do outro. A humanidade teme o diferente e o desconhecido, por
isso se apega as suas certezas e crenças,
muitas vezes, limitantes. No entanto, podemos dizer que do texto à ação
existe uma longa estrada a ser percorrida. Por mais otimista que eu seja não
vejo um futuro promissor para a humanidade. A essência da maldade e do
separatismo continua a ser espalhada desenfreadamente. ”E assim caminha a humanidade,
com passos de preguiça e sem vontade”. Todas as chances que foram dadas para a
mudança na essência e não somente na aparência, foram colocadas no lixo. O
homem se recusa a aprender com seus erros. O homem se recusa vencer o próprio
homem, se recusa a vencer a si mesmo. O homem olha para a sombra no fundo da
caverna e ama a sombra. Ama tudo o que é sombrio, e por isso não conhece o sol,
a luz, e muito menos o amor, mas conhece a paixão e o apego, sombras do amor.
Por outro lado, talvez, Nietzsche tenha se esquecido de uma coisa, para que o
homem supere o próprio homem, primeiro é preciso construir o homem, que, por
enquanto, é tão somente um animal.
14/05/2018
A NOVA ERA NA POLÍTICA BRASILEIRA
Eliani Gracez
Muito se falou sobre New Age (nova
era), mas pouco se fez para de fato viver uma nova era. New age é um movimento
de contracultura e contra dogmas que surgiu entre as décadas de 1960 e 1970, e pede
por uma nova ordem global, um novo modelo de consciência moral, social, enfim,
pede por uma nova psicologia onde haja uma simbiose com a natureza e o cosmo em
todas as suas dimensões. No entanto, a nova ordem tem como base princípios
teosóficos do século XIX e princípios metafísicos do passado. Uma tentativa de
estabelecer uma nova ordem global a partir do velho. Isso significa uma troca
de seis por meia dúzia. Tiraram a velharia que não servia mais e colocaram o
velho considerado mais adequado a liberdade de jovens daquela época. Talvez,
por isso, uma nova era, ou nova ordem global, tenha sido apenas um idealismo a
mais. A guerra continua e cada vez mais cruel. Irmãos nascidos para o amor
matam-se simultaneamente. Que nova era é essa? O paz e amor, tão anunciado, sucumbiram
em meio a violência e ao ódio que tomaram conta do planeta. No Brasil a
corrupção aniquilou com a confiança do povo que, descrente, não sabe em quem
votar, ou, ainda, se faz diferença votar. Afinal, tirar um corrupto e eleger
outro, assim como a New age, também é trocar seis por meia dúzia. O brasileiro
não confia mais na política brasileira, que possui, desde o passado, os pés na
lama. E agora, como estabelecer uma nova ordem em meio a tanta desordem? Seria
isso possível? Seria possível confiar de novo em quem se depositou a confiança
e o voto e depois se demonstrou ser uma decepção? Diz o ditado popular que
confiança uma vez perdida não tem como ter de volta. No passado eu votei no
Lula e posteriormente na Dilma, meus ideais se identificavam com a classe
trabalhadora e oprimida. Quando Dilma foi eleita fiquei feliz por ter uma
mulher no poder. Acreditei em uma nova era próspera. Ver Dilma governando o
Brasil na sombra de Lula foi decepcionante. O poder estava com ele e não com a
presidente. Mas voltemos a nossa questão: seria possível confiar novamente em
uma “instituição chamada política” que tanta decepção causou? Confesso, não
tenho a resposta, mas deixo a questão aberta ao debate civilizado, para que não
se caia na ilusão de uma nova ordem. Talvez, uma nova ordem só possa ser
estabelecida por quem nunca tenha participado de uma guerra e não tenha
emporcado a natureza de sangue, ou, quem sabe, a nova ordem tenha que ser
estabelecida por aqueles que já participaram de uma guerra e sabem o que é ver
sangue inocente derramado em campo de batalha. Possivelmente décadas se passem
antes que a nova ordem se instale nesse planeta, se é que um dia isso irá
acontecer. E tudo isso por termos confiado em quem nunca deveria ter sido
merecedor da nossa confiança. Nas urnas posso dar meu voto, mas não serei
depositária da minha confiança.
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