01/06/2018

CRENÇAS LIMITANTES


Eliani Gracez

Nossas crenças determinam nossas ações. Para mudar o comportamento é preciso primeiro mudar de crença. A formação de crenças está diretamente ligada ao lugar onde fomos criados, a família, a sociedade, e, nos dias de hoje, a mídia entre outros. Em muitos casos, nossas crenças foram construídas de forma inconsciente. Cremos em algo sem nem mesmo questionar o impacto da crença na nossa vida. Uma criança com dificuldade no aprendizado pode ter ouvido de alguém que ela é burra, e por isso cresceu acreditando ser incapaz de aprender. Formamos crenças quando acreditamos ser verdade algo que em muitos casos a pessoa nem se quer parou para pensar sobre o assunto, em outros casos, a pessoa parou, pensou e encontrou uma justificativa para considerar a crença verdadeira, ou seja, encontrou bons motivos para crer. A verdade está muito além de bons motivos ou de uma justificativa para crer. Devido a necessidade de certezas, porque admitir nossos erros dá muito trabalho, permanecemos na mesmice e limitados por falsas crenças. Esse é um entre outros motivos pelo qual o prisioneiro da caverna de Platão não consegue se libertar de suas amarras. Falamos sobre o prisioneiro da caverna no artigo intitulado “A caverna de Platão”. Platão defende que o conhecimento parte de uma crença. Segundo ele não é possível ter conhecimento sobre algo que não cremos ser verdadeiro. Portanto, crer na existência de uma verdade é princípio primeiro para o conhecimento desta verdade. Vamos lá...pensem comigo: se existem crenças verdadeiras, e se isso for uma verdade, o oposto também é verdadeiro, portanto, é verdade que existem crenças falsas. Assim sendo, os dois opostos são verdadeiros. Continuando com o nosso raciocínio, a crença tem que estar justificada pela razão. Nesse momento eu paro e penso: “santa paciência!” Já imaginaram se cada crença minha eu tivesse que submetê-la a esse processo longo e racional para descobrir se minhas crenças são falsas ou verdadeiras? Como está entre as minhas crenças que somos maiores do que nossa razão, embora muitos ainda sejam limitados pela razão, a pergunta que não quer calar é: estaria a verdade limitada a razão? Nesse caso, somente o que contém lógica seria verdadeiro ou existe a verdade do irracional e do inconsciente? Poderiam existir verdades invisíveis à razão? E se nossa razão estiver atrelada a pequenez humana e por isso verdades maiores que nossa pequenez não possam ser vislumbradas e por isso ainda o pequeno ser humano em sua soberba pense que só existe aquilo que ele pode conceber racionalmente ou ainda perceber com os sentidos? Okay, voltemos as nossas crenças limitantes, como eu disse anteriormente, somos maiores que nossa razão. Seria esta afirmação uma crença falsa ou verdadeira? Como a verdade é relativa, porque a verdade de uma pessoa pode ser a falsidade de outra, tudo é possível. Mas pensar que tudo é possível seria uma crença falsa ou verdadeira? Como o que está em questão são as crenças limitantes, esta é uma crença não limitante que está aberta ao mundo das possibilidades. Esse é o cerne da nossa questão, crenças limitantes impedem o crescimento e a possibilidade de crescer, impedem a felicidade, a liberdade, inclusive liberdade de expressão. Crenças limitantes impedem o fluir da vida. Vamos então dividir em dois grupos nossas crenças. Crenças limitantes ou limitadoras e crenças facilitadoras. Crenças facilitadoras são aquelas que impulsionam o sucesso pessoal e profissional, onde o indivíduo acredita no seu potencial e na capacidade de aprender e crescer, acredita na capacidade de superação das dificuldades do dia a dia. Enquanto isso, crenças limitadoras limitam o potencial e reduzem o mundo das possibilidades a um caroço de amêndoas. Portanto, a crença de que somos maiores do que nossa razão não é uma crença limitante, mas sim uma crença que leva a conhecer cada vez mais e mais coisas, e conduz ao crescimento pessoal, profissional, intelectual etc. Seriam crenças limitantes ou limitadoras verdadeiras? Se elas limitam pessoas impedindo o crescimento, aprendizado, limitam a pessoa uma ignorância muitas vezes sem fim e a falta de conhecimento até mesmo sobre a falsidade ou a veracidade, nesse caso, então, as crenças limitadoras são crenças falsas. Questione-se em que área de sua vida você gostaria de melhorar seu desempenho, mas não consegue. Por trás disso tem uma crença limitante, uma crença que impede seu crescimento, uma crença que te nivela por baixo. Seria esse o teu lugar ou só estás nivelado por baixo por que crês nisso?

31/05/2018

Gênio Indomável

Eliani Gracez

Segundo Clarissa Pinkola Estés, Toda mulher tem anseio pelo que é selvagem. “Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem decididamente quatro patas.” A mulher é indomável, mesmo que ao longo do tempo tenha sofrido um excessivo adestramento. Meu gênio é indomável, pavio curto, instintiva, farejadora, gosto do olho no olho! A terra espiritual da mulher selvagem é minha terra. Não tenho medo da morte, temo viver sem ela, o que seria da vida sem mudança. Mas quem compreende uma loba?, todos preferem a adestrada criatura, afinal, ela é dócil e obediente. Eu...obediente?! Nem pensar! Está para nascer quem irá me adestrar. A mulher selvagem e os lobos foram temidos pelos homens, temidos pelo seu poder, o poder da noite, da lua, do uivo e do olhar hipnótico. A mulher loba desobedece as regras, ela tem uma vida vibrante no mundo interno e externo. A força da mulher vem dessa loba interior. A mulher selvagem luta por outras mulheres, ela resgata o feminino, mesmo sendo rotulada, violentada e chamada de louca. A loba encontra sua matilha e ocupa seu corpo com segurança e orgulho, e sabe cuidar de si. De mim cuido eu! A mulher selvagem está por trás de toda escritora, pensadora, dançarina... Nossa arte é visceral. A mulher selvagem sabe sentir, pensar e amar. Ela é quem se enfurece diante da injustiça, ela é quem traz um filho ao mundo, ela é quem nos mantém vivas. Mas tem quem prefira a outra, adestrada e polida


19/05/2018

O MENTIROSO


Eliani Gracez

            Na psicanálise a mentira é uma distorção do conteúdo psíquico a ser analisado. Contar uma verdade requer coragem para o enfrentamento com a realidade da vida, coragem essa que nem todos possuem, por isso, aparentemente, é mais fácil mentir. Nem todos estão preparados para o enfrentamento nu e cru com a verdade. Nietzsche se perguntava: quanta verdade sou capaz de suportar?  A mentira pode se tornar patológica quando o analisando tende a se expressar pela mentira compulsivamente. Essa compulsão pode se manifestar em pequenas ou complexas inverdades. Muitas vezes, a pessoa não tem o menor controle sobre a compulsão, mentindo até mesmo nas coisas mais banais do dia a dia. Por trás dessa compulsão pode ser encontrada uma baixa autoestima ou até mesmo uma onipotência narcísica. No narcisismo, mãe e bebê estão em uma situação psíquica onde persiste um forte grau de fusão, uma não diferenciação um do outro por parte do bebê. Quando o bebê sai da fase simbiótica, ele inicia a fase de separação e diferenciação do eu com relação ao outro. Uma diferenciação entre o bebê e sua mãe. Desta forma se dá o nascimento psicológico da criança. Na fase simbiótica o bebê acredita que os atos de sua mãe é fruto do seu desejo. E assim se forma no bebê a ilusão de que todos estão ali para ele e somente para ele. Uma ilusão se forma onde o bebê é a majestade e os outros seus súditos. Essa onipotência, em alguns casos, permanece até a fase adulta, onde as pessoas que rodeiam a pessoa onipotente estão ali para servi-la. O narcisista não lida bem com a frustração e se torna agressiva quando confrontada. Outro tipo de mentiroso é aquele que mente para sustentar um status que, por vezes, ele não possui. Mente para parecer ser aquilo que de fato não é. O mentiroso também pode mentir pelo prazer de ver uma pessoa se dar mal. Uma psicopatia onde pessoas assim não têm pudor algum. Tratando o outro como objeto para impor sua vontade. O mentiroso, na maioria dos casos, trava uma luta para manter sua autoestima e o medo de ser rejeitado. A necessidade de autoafirmação, de ser aceito em um grupo social ou de ser popular entre colegas de uma escola são motivos para uma pessoa insegura mentir. No setting analítico (consultório) é preciso diferenciar o que é mentira, fantasia e delírio, daquilo que de fato está acontecendo. A fantasia é um processo de imaginação de como poderia ser a realidade. Uma pessoa pode imaginar que um fato aconteceu de uma forma quando na realidade aconteceu de outra forma bem diferente. Já o delírio é fruto de uma confusão mental, podendo ser acompanhado de alucinações visuais. Nesse caso, a pessoa não está mentindo, ela apenas retrata visões ilusórias existentes somente em seu psiquismo. Mas voltemos ao mentiroso. A mentira pode ser uma resistência que a pessoa tem em aceita a realidade ou em trabalhar o problema em si. Uma fuga do enfrentamento com a realidade. O fenômeno da resistência tem sido observado desde os primórdios da psicanálise e continua sendo considerado a pedra angular na prática analítica. Motivo pelo qual, a resistência ainda continua sendo estudada em seus mais variados prismas. O pensamento lógico e organizado pressupõe um ego forte e capaz de tolerar tensões, mas nem todos possuem essa força. E sempre que a realidade impõe eventos desagradáveis, aquele que não possui um ego forte, prefere a mentira ao enfrentamento com sua realidade. Nesse caso, a mentira torna-se um mecanismo de defesa onde a realidade é negada. E assim temos a mentira como um mecanismo de defesa e de negação da realidade. Alguns mentem por compulsão, outros mentem para tirar vantagens de uma situação. Na política é possível encontrar a mentira como uma atuação profissional. Verdadeiros atores que fazem a mentira ter o valor de uma verdade. A mentira usada politicamente pode ser fundamentada em Platão e Maquiavel. Platão, no livro A república, dizia que o governante poderia mentir para o bem coletivo. Em o príncipe, Maquiavel afirma que o governante deve agir segundo a moral sempre que possível, mas deve infringi-la quando for necessário para a manutenção do poder. Assim a mentira pode ter várias causas: receio das consequências, insegurança, maldade, baixa da autoestima, isenção de culpa, razões patológicas etc.



18/05/2018

COISAS DO CORAÇÃO


                                                                                                                                        Eliani Gracez

Desde que Nietzsche disse que errar era humano, demasiado humano, nos valemos dessa prerrogativa para justificar nossos erros, esquecendo-nos, ainda, que em Nietzsche, o homem tem que superar o próprio homem. O homem, nesse caso, é o ser humano, limitado, falível, que vive de aparência. O homem é aquele que vive de ilusão, com ou sem estudo, analfabeto ou doutorado. Sendo um prisioneiro da caverna de Platão ou pensando já ter se livrado da sua caverna. Mas, para que aconteça a superação proposta por Nietzsche, tem o homem que conhecer sua verdadeira essência. Devemos sempre perguntar pela essência, pois atrás da aparência reside a essência, sobretudo a essência do mal travestida de bom samaritano. Conhecendo a essência é que vemos com quem estamos lidando. Mas o grande problema é que a essência se esconde atrás da aparência e da personalidade. Ela se esconde atrás do moralismo das instituições, atrás da educação ou falta de educação, ela se esconde atrás da formação religiosa e familiar. Tudo isso molda a personalidade, ou, o jeito de ser de cada pessoa.  A aparência ilusória, finita e mutável, esconde a verdade sobre a essência de potencial ilimitado, seja para o bem ou para o mal, é possível não se ter limites para a maldade, assim como não se pode botar um limite para o amor. Limitar o amor é estabelecer o que pode ser amado e o que não pode, bem como estabelecer a intensidade do amor, isso seria o mesmo que dizer que só se pode amar um pouco, mas não intensamente.  Para piorar a situação, a criatura humana não se importa com seus erros, achando tudo simplesmente humano. Não se importa com o sofrimento daqueles que vêm ao mundo para fazer a diferença, Buda, Jesus... Confunde o problema com a solução. Confunde anjo com demônio. Isso tudo porque a razão serve a dois senhores, o senhor do bem e o senhor do mal. Afinal, o mal tem lá sua razão de ser. O ser humano é um ser de razão com possibilidade de superar a própria razão e se tornar um ser de amor. A razão divide em dois opostos. O amor une duas metades. A razão separa, quantifica e qualifica o humano. A mente trabalho como um computador a partir de uma lógica. Pessoas prontas para amar aceitam as diferenças entre ele e o outro com tranquilidade. Pessoas sem amor contabilizam as diferenças e apoiam somente quem pensa como eles e sente como eles. O diferente é o outro, é o “não eu”, é tudo aquilo que eu não sou. Colocando assim um abismo entre ele e quem ele pensa estar do outro lado, somente porque não é igual a si mesmo. A razão é o que nos separa, o amor é o que nos une. A razão faz uma lista das diferenças. O amor só quer amar e pronto. Essa humanidade ainda não aprendeu o que nos une, mas aprendeu o que nos separa, somo diferentes uns dos outros sim, ainda bem. Já imaginaram se todos fossem semelhantes a uma frota de carros da mesma marca e da mesma cor? A humanidade não mudou, continua a mesma desde o passado até hoje, não está pronta para o diálogo educado e fraternal, como se diz por aí, com a mente aberta e sem pré-juízos moldados por aparência ilusória. Não está preparada para sentir o coração do outro pulsando, muito menos para respeitar os sentimentos do outro. A humanidade teme o diferente e o desconhecido, por isso se apega as suas certezas e crenças,  muitas vezes, limitantes. No entanto, podemos dizer que do texto à ação existe uma longa estrada a ser percorrida. Por mais otimista que eu seja não vejo um futuro promissor para a humanidade. A essência da maldade e do separatismo continua a ser espalhada desenfreadamente. ”E assim caminha a humanidade, com passos de preguiça e sem vontade”. Todas as chances que foram dadas para a mudança na essência e não somente na aparência, foram colocadas no lixo. O homem se recusa a aprender com seus erros. O homem se recusa vencer o próprio homem, se recusa a vencer a si mesmo. O homem olha para a sombra no fundo da caverna e ama a sombra. Ama tudo o que é sombrio, e por isso não conhece o sol, a luz, e muito menos o amor, mas conhece a paixão e o apego, sombras do amor. Por outro lado, talvez, Nietzsche tenha se esquecido de uma coisa, para que o homem supere o próprio homem, primeiro é preciso construir o homem, que, por enquanto, é tão somente um animal.

14/05/2018

A NOVA ERA NA POLÍTICA BRASILEIRA

Eliani Gracez

Muito se falou sobre New Age (nova era), mas pouco se fez para de fato viver uma nova era. New age é um movimento de contracultura e contra dogmas que surgiu entre as décadas de 1960 e 1970, e pede por uma nova ordem global, um novo modelo de consciência moral, social, enfim, pede por uma nova psicologia onde haja uma simbiose com a natureza e o cosmo em todas as suas dimensões. No entanto, a nova ordem tem como base princípios teosóficos do século XIX e princípios metafísicos do passado. Uma tentativa de estabelecer uma nova ordem global a partir do velho. Isso significa uma troca de seis por meia dúzia. Tiraram a velharia que não servia mais e colocaram o velho considerado mais adequado a liberdade de jovens daquela época. Talvez, por isso, uma nova era, ou nova ordem global, tenha sido apenas um idealismo a mais. A guerra continua e cada vez mais cruel. Irmãos nascidos para o amor matam-se simultaneamente. Que nova era é essa? O paz e amor, tão anunciado, sucumbiram em meio a violência e ao ódio que tomaram conta do planeta. No Brasil a corrupção aniquilou com a confiança do povo que, descrente, não sabe em quem votar, ou, ainda, se faz diferença votar. Afinal, tirar um corrupto e eleger outro, assim como a New age, também é trocar seis por meia dúzia. O brasileiro não confia mais na política brasileira, que possui, desde o passado, os pés na lama. E agora, como estabelecer uma nova ordem em meio a tanta desordem? Seria isso possível? Seria possível confiar de novo em quem se depositou a confiança e o voto e depois se demonstrou ser uma decepção? Diz o ditado popular que confiança uma vez perdida não tem como ter de volta. No passado eu votei no Lula e posteriormente na Dilma, meus ideais se identificavam com a classe trabalhadora e oprimida. Quando Dilma foi eleita fiquei feliz por ter uma mulher no poder. Acreditei em uma nova era próspera. Ver Dilma governando o Brasil na sombra de Lula foi decepcionante. O poder estava com ele e não com a presidente. Mas voltemos a nossa questão: seria possível confiar novamente em uma “instituição chamada política” que tanta decepção causou? Confesso, não tenho a resposta, mas deixo a questão aberta ao debate civilizado, para que não se caia na ilusão de uma nova ordem. Talvez, uma nova ordem só possa ser estabelecida por quem nunca tenha participado de uma guerra e não tenha emporcado a natureza de sangue, ou, quem sabe, a nova ordem tenha que ser estabelecida por aqueles que já participaram de uma guerra e sabem o que é ver sangue inocente derramado em campo de batalha. Possivelmente décadas se passem antes que a nova ordem se instale nesse planeta, se é que um dia isso irá acontecer. E tudo isso por termos confiado em quem nunca deveria ter sido merecedor da nossa confiança. Nas urnas posso dar meu voto, mas não serei depositária da minha confiança.


04/05/2018

A CAVERNA DE PLATÃO - Eliani Gracez



Segundo a alegoria da caverna de Platão, existem homens prisioneiros em uma caverna, acorrentados pelos pés e pelo pescoço. O olhar dos prisioneiros está voltado para uma parede que fica no fundo da caverna. Atrás dos acorrentados tem um muro e homens carregam figuras, atrás do muro tem um fogo. Pessoas e objetos passam atrás do muro, e por causa da luz do fogo, projeta imagens na parede onde estão voltados os olhares dos prisioneiros. Prisioneiros acorrentados só veem sombras da realidade, e não a realidade em si. Convido você, que está lendo este texto agora, a pensar junto comigo sobre a alegoria da caverna de Platão. Imaginemos que nós somos os prisioneiros da caverna e que as sombras alimentam os nossos cinco sentidos. Segundo Schopenhauer, os sentidos fazem uma coleta de dados para o nosso entendimento formar uma representação dos objetos. Nosso entendimento usa dos sentidos para o conhecimento imediato. A partir dessa coleta de dados, os prisioneiros pensam entender a realidade, ou, como diz Schopenhauer, a representar os objetos. Mas é com a carência de entendimento que acontece a “estupidez”, mediante a incapacidade de reunir causa e efeito. Falta, nesse caso, argúcia, rapidez, dificuldade no uso da lei de causa e efeito. Mas deixemos Schopenhauer de lado e voltemos a nossa caverna, visto que o objeto do nosso estudo, especificamente, são as sombras projetadas no fundo da caverna, e a influência delas em nós. A sombra é um vulto, é ausência de luz, no caso da alegoria da caverna, a sombra é uma projeção obscura da realidade, um vulto da realidade. Desse vulto os prisioneiros alimentam seus sentidos que levam material para o entendimento, que em um próximo passo, formam representações e conceitos a partir de uma “visão” distorcida que conduz ao erro, ao preconceito, a uma ética que não visa ao bem coletivo e nem a felicidade. O prisioneiro da caverna forma um conteúdo interior a partir das sombras que ele vê, e ama seu “saber”. Por isso é tão difícil sair da caverna. O prisioneiro ama uma ilusão acreditando ser a única realidade existente. Desse amor ao “saber” surgem a fé e a crença. Como o prisioneiro da caverna não vê a realidade, ele ama uma sombra. Mas, a pergunta que não quer calar é: seria esse amor verdadeiro? Se pensarmos que a sombra é o não ser e a luz o ser, na sombra reside aquilo que não é o amor, reside o “não amor”, nesse caso, o amor vem do oposto, vem da luz, vem do ser. Na alegoria platônica fica claro que sombra e luz são dois opostos. A sombra está na frente do prisioneiro, no fundo da caverna. Já o fogo que ilumina está no oposto, nas costas do prisioneiro. Na caverna os prisioneiros se apegam as sombras e pensam ser amor verdadeiro. Confundem amor com apego. O amor é libertador, o apego aprisionador (aprisionar+dor). Os prisioneiros da caverna precisam se apegar a alguma coisa para conseguir sobreviver, do contrário eles teriam que admitir o nada interior, eles teriam que admitir a própria ignorância, o desafeto, a angústia etc. Teriam que admitir que seu conteúdo interior é formado por tudo que não é luz. Os prisioneiros da caverna vivem o desprazer e não o prazer, origem de algumas neuroses. Pobres criaturas! Prisioneiros não vivem e sim sobrevivem, afinal, o conceito de vida não inclui prisão e sim libertação. Os prisioneiros nem mesmo se dão de conta de sua prisão, não se dão de conta de que seus conteúdos foram formados a partir de sombras daquilo que poderia ter sido e não foi. Numa relação de causa e efeito os prisioneiros não ligam a sombra com o fogo. Falta de argúcia, diria Schopenhauer, afinal, sem a luz do fogo não poderia haver projeção da sombra no fundo da caverna. Por mais perfeita que seja a visão, para que um homem veja, é preciso que haja a luz (Platão).



03/02/2018

SONHOS - Eliani Gracez


          A raça humana passa 1/3 de sua existência dormindo, e ao dormir, sobrevêm os sonhos. Algumas pessoas sonham eventualmente, outras sonham com mais frequência, outros ainda pensam não sonhar. O fato é que o interesse pelo sonho vem de longa data. Há mais ou menos 4 mil anos os egípcios acreditavam que os sonhos fossem mensagens divinas. Daquela época até os dias de hoje, muitas teorias e pesquisas sugiram. Cientista, filósofos e psicanalistas destinaram um tempo de suas pesquisas aos sonhos. Neste artigo, vamos estudar algumas dessas pesquisas, inclusive aquelas teorias que afirmam a essência divina dos sonhos.
          Dormir não é somente um privilégio humano, os animais também precisam dormir. Se o sono não fosse algo importante ele já teria sido eliminado, pois durante o sono os animais ficam mais vulneráveis a ataques de predadores. Entre os humanos, a quantidade de sono varia de pessoa para pessoa, uns acordam revigorados com cinco ou seis horas de sono, outros precisam dormir por mais tempo. Enquanto dormimos os processos metabólicos continuam, dormir não é uma parada do coração e nem do cérebro, muito menos uma parada respiratória. No processo do sono músculos se movem de vinte a quarenta vezes, pois a pessoa se movimenta enquanto dorme.
          A glândula pineal, que o filósofo francês René Descartes (1596-1650) considerava a morada da alma, e os hindus, a sede de um dos chacras mais importantes do corpo, também é ela que produz o hormônio do sono chamado de Melatonina. Com o fim do dia e a redução da luz a melatonina passa a ser liberada, trazendo o sono. Um dos motivos da falta de sono é a baixa produção de melatonina.
          Durante o sono o cérebro continua ativo. Nas últimas décadas exames foram realizados com aparelhos de eletroencefalograma que registram ondas cerebrais durante as horas de sono e de vigília, mas uma das grandes descobertas foi em 1951, pelo pós-graduado em psicologia Eugene Aserinsky, o chamado sonho REM (Rapid Eye Moviment/Movimento rápido dos olhos). A fase REM do sono é aquela onde se observam movimentos nos olhos. Nesta fase, os sonhos são mais vívidos. A fase REM do sono tem atividade cerebral similar à fase em que se está acordado.
          Em 1959, William Dement fez um experimento de privação de sono com o locutor de rádio Peter Tripp. O locutor ficaria acordado por 200 horas. Nos primeiros dias o locutor manteve sua lucidez, mas logo vieram alucinações, e cinco dias depois ficou seriamente perturbado, chegando a ver o terno de alguém de sua equipe cheio de vermes, acusando outra pessoa de ser o coveiro que viera medi-lo para fazer seu caixão. Com o fim da experiência, o locutor dormiu e recuperou a sanidade, permanecendo por semanas com a sensação de depressão.
          Existe uma nítida ligação entre o sono e a depressão. Dormir bem ajuda pessoas com depressão a ter uma melhor qualidade de vida, e a falta do sono a ter uma recaída na depressão. Pacientes com depressão, em sua maioria, relatam algum distúrbio do sono. O sono é importante para a saúde física e mental. Estabelecer bons hábitos de sono é fundamental, sobretudo, para quem sofre de depressão ou bipolaridade. No entanto, normalmente, o sono é a primeira coisa que sacrificamos quando estamos estressados ou sobrecarregados de serviço. Durante o sono existem várias fases distintas, incluindo alterações nos batimentos cardíacos, movimentos musculares e muito mais. Um processo inconsciente que dura a noite toda. Dormir mal ou ter poucas horas de sono, como também dormir excessivamente, pode afetar a saúde física e mental, por isso autorize-se a dormir adequadamente.
          Segundo Eddie Van Feu, sonhar pode ser o produto mental do mesmo tipo de processo psicológico que se percebe nas enfermidades mentais. A diferença é que o sonho se dá quando dormimos. De alguma forma, enquanto dormimos, somos delirantes e dementes.
          O sonho é mais importante para a psicanálise do que o sono em si. Ao dormir, vem o sono leve e os pensamentos podem ficar descoordenados. Sobrevém o sono intermediário onde pode haver experiências sensoriais irreais e pequenos tremores repentinos no corpo. Então vem o momento do sono mais profundo ainda, onde a pessoa fica aleia aos movimentos ao seu redor. E por fim, no último estágio vem o sono mais profundo onde pode haver o sonambulismo, algumas pessoas nesse estágio falam enquanto dormem. No sono REM, onde ocorre ativação do sistema límbico do cérebro, movimentos primitivos acontecem, é onde, segundo Freud, ocorre a regressão que leva aos estados primitivos da infância. O sonho parece estar além da linguagem conhecida por nós, isso porque desconhecemos muitos dos simbolismos que se apresentam em sonhos. No entanto, em uma avaliação mais detalhada, é possível perceber que o significado está no cotidiano ou na vida pregressa do sonhador. Uma paciente certa vez teve o seguinte sonho: sonhou que uma pessoa que ela gostava estava sendo ameaçada por um bandido. Ela não compreendeu o sonho e nem sabia quem eram aquelas pessoas que apareciam no sonho, mas estava preocupada com as ameaças feitas. Quando perguntei à ela quem era a pessoa que ela gostava na vira real, após um breve silêncio ela resposta que  era o namorado. Quando perguntei quem era a pessoa que ameaçava o namorado ou o namoro, ela respondeu que era um ex namorado que insistia em voltar a namorá-la. Aquilo que a princípio carecia de entendimento, tornou-se claro em uma análise da vida cotidiana da analisanda e da pergunta certa, ou, assertiva. O sonho precisa ser interpretado a luz do conteúdo interno de cada sonhador. Somente o sonhador pode dar significado ao seu próprio sonho ao trazer o sonho para sua própria linguagem, símbolos e signos. Em muitos casos é o sentido daquilo que sonhamos que deve ser analisado. No sonho citado anteriormente, o sentido está no medo das ameaças. A analisanda se sentia ameaçada pelo ex namorado que desejava reatar o namoro. Para Freud, o sonho é a estrada real que conduz ao inconsciente. A interpretação de símbolos, a partir do conteúdo do sonhador, é fundamental para compreender a natureza humana. Em um sonho é possível saber como o sonhador lida com as forças malignas ou sombrias, para então entender como a pessoa desperta lida com a adversidade, oposição de ideias etc. Carl Yung, discípulo de Freud, acrescenta algo importante aos sonhos que ele chamou de eventos psíquicos. Um exemplo desse tipo de sonho é uma criança que sonhou que anjos estavam levando seu irmão, quando acordou o irmão havia falecido.
          Com o fenômeno dos sonhos surgiu no passado da humanidade o conceito de alma humana que agia no mundo dos sonhos. Na antiguidade, alguns povos pensavam que os sonhos possuíam um significado. Pessoas como os profetas e sacerdotes traduziam as mensagens contidas nos sonhos. Hipócrates, médico grego (460-377 a.C.), escreveu no Tratado sobre os sonhos: “Alguns sonhos são de inspiração divina, outros são frutos do corpo físico”. Hipócrates acreditava que nos sonhos era possível prever doenças. Segundo ele, se em um sonho os astros são vistos fracamente, ou brilham fracamente e parecem ter parado de girar, isso é sinal de doença. Hipócrates vai mais adiante, a cor preta em sonho é sinal de doença física, sonhos de voo indicam perturbação mental. No Egito antigo, temos a famosa interpretação dos sonhos de José (Gênesis, antigo testamento). São vários sonhos interpretados por José, e outros sonhos que o próprio José sonhou e que se tornaram realidade. Um dos sonhos interpretados por José foi o sonho em que o faraó viu sete espigas de milho subindo de uma mesma haste granada e bela, mas eis que sete outras espigas de milho pequenas e queimadas nasciam atrás delas, e as sete espigas pequenas e queimadas devoravam as sete espigas granadas e belas. José disse ao faraó ser um aviso que a região teria sete anos de fartura , e depois viriam sete anos de miséria. Acreditando na interpretação de José, o faraó deu a José a tarefa de armazenar um quinto de todo o grão que fosse colhido no período de fartura. Passados sete anos de fartura sobrevieram os sete anos de escassez, como José havia interpretado.  Conta na Ilíada de Homero que enquanto Aquiles dormia o fantasma de seu amigo Pátroclo apareceu para ele dando instruções sobre seu funeral.  A Bíblia conta que em sonho José recebeu orientação sobre a gravidez de Maria: “José, não temas receber Maria como tua esposa, porque o que nela está gerado vem do Espírito Santo” (Mat 1:20).   Também a gravidez do Buda Siddhartha Gautama, foi revelada à sua mãe em sonho, e Maomé recebeu de Alá a primeira parte do Corão em sonho. Pela manhã Maomé interpretava seus sonhos e o sonho dos seus discípulos.
           O filósofo francês René Descartes (1596-1650) era um exímio sonhador, em 10 de novembro de 1619, Descartes teve três sonhos. Os dois primeiros cheios de aparições, vendaval e trovões que ele interpretou como sendo representações das consequências de seus pecados. No terceiro sonho ele recebia um dicionário e um livro de poesia. Descartes interpretou o dicionário como sendo a ciência, e o livro de poesia como sendo a filosofia. O filósofo Frances acreditava que ele tinha sido visitado pelo espírito da verdade. A romancista inglesa Charlotte Brontë (1816-1855) dizia que quando tinha dificuldades com seu texto ela se concentrava nele antes de dormir e acordava com o problema resolvido. Napoleão Bonaparte (1769-1821) não desprezava as ideias que vinham em sonho, ao acordar ele experimentava as táticas oníricas com miniaturas em uma caixa de areia.

          Encontramos nos sonhos uma forma pela qual o inconsciente se expressa, um acesso ao mundo da realidade de nossa não consciência, ou, inconsciência, ou, não sabedoria. Com + ciência = consciência, mas, onde está aquilo que ainda não sabemos e que de um momento para o  outro passamos a ter ciência? Se passamos a ter ciência é porque já estava pronto para ser acessado em algum lugar no nosso mundo interior, esperando ser trazido a consciência para ser estudado e analisado.  Reza a lenda que do caos surge a ordem. A própria bíblia diz que no principio só existiam as trevas. Seriam essas “trevas” o nosso inconsciente caótico onde contem aquilo que será trazido a ordem e que ainda não sabemos. Um filósofo antigo dizia que nós não sabemos nem mesmo o quanto não sabemos. Bons sonhos!