14/05/2018

A NOVA ERA NA POLÍTICA BRASILEIRA

Eliani Gracez

Muito se falou sobre New Age (nova era), mas pouco se fez para de fato viver uma nova era. New age é um movimento de contracultura e contra dogmas que surgiu entre as décadas de 1960 e 1970, e pede por uma nova ordem global, um novo modelo de consciência moral, social, enfim, pede por uma nova psicologia onde haja uma simbiose com a natureza e o cosmo em todas as suas dimensões. No entanto, a nova ordem tem como base princípios teosóficos do século XIX e princípios metafísicos do passado. Uma tentativa de estabelecer uma nova ordem global a partir do velho. Isso significa uma troca de seis por meia dúzia. Tiraram a velharia que não servia mais e colocaram o velho considerado mais adequado a liberdade de jovens daquela época. Talvez, por isso, uma nova era, ou nova ordem global, tenha sido apenas um idealismo a mais. A guerra continua e cada vez mais cruel. Irmãos nascidos para o amor matam-se simultaneamente. Que nova era é essa? O paz e amor, tão anunciado, sucumbiram em meio a violência e ao ódio que tomaram conta do planeta. No Brasil a corrupção aniquilou com a confiança do povo que, descrente, não sabe em quem votar, ou, ainda, se faz diferença votar. Afinal, tirar um corrupto e eleger outro, assim como a New age, também é trocar seis por meia dúzia. O brasileiro não confia mais na política brasileira, que possui, desde o passado, os pés na lama. E agora, como estabelecer uma nova ordem em meio a tanta desordem? Seria isso possível? Seria possível confiar de novo em quem se depositou a confiança e o voto e depois se demonstrou ser uma decepção? Diz o ditado popular que confiança uma vez perdida não tem como ter de volta. No passado eu votei no Lula e posteriormente na Dilma, meus ideais se identificavam com a classe trabalhadora e oprimida. Quando Dilma foi eleita fiquei feliz por ter uma mulher no poder. Acreditei em uma nova era próspera. Ver Dilma governando o Brasil na sombra de Lula foi decepcionante. O poder estava com ele e não com a presidente. Mas voltemos a nossa questão: seria possível confiar novamente em uma “instituição chamada política” que tanta decepção causou? Confesso, não tenho a resposta, mas deixo a questão aberta ao debate civilizado, para que não se caia na ilusão de uma nova ordem. Talvez, uma nova ordem só possa ser estabelecida por quem nunca tenha participado de uma guerra e não tenha emporcado a natureza de sangue, ou, quem sabe, a nova ordem tenha que ser estabelecida por aqueles que já participaram de uma guerra e sabem o que é ver sangue inocente derramado em campo de batalha. Possivelmente décadas se passem antes que a nova ordem se instale nesse planeta, se é que um dia isso irá acontecer. E tudo isso por termos confiado em quem nunca deveria ter sido merecedor da nossa confiança. Nas urnas posso dar meu voto, mas não serei depositária da minha confiança.


04/05/2018

A CAVERNA DE PLATÃO - Eliani Gracez



Segundo a alegoria da caverna de Platão, existem homens prisioneiros em uma caverna, acorrentados pelos pés e pelo pescoço. O olhar dos prisioneiros está voltado para uma parede que fica no fundo da caverna. Atrás dos acorrentados tem um muro e homens carregam figuras, atrás do muro tem um fogo. Pessoas e objetos passam atrás do muro, e por causa da luz do fogo, projeta imagens na parede onde estão voltados os olhares dos prisioneiros. Prisioneiros acorrentados só veem sombras da realidade, e não a realidade em si. Convido você, que está lendo este texto agora, a pensar junto comigo sobre a alegoria da caverna de Platão. Imaginemos que nós somos os prisioneiros da caverna e que as sombras alimentam os nossos cinco sentidos. Segundo Schopenhauer, os sentidos fazem uma coleta de dados para o nosso entendimento formar uma representação dos objetos. Nosso entendimento usa dos sentidos para o conhecimento imediato. A partir dessa coleta de dados, os prisioneiros pensam entender a realidade, ou, como diz Schopenhauer, a representar os objetos. Mas é com a carência de entendimento que acontece a “estupidez”, mediante a incapacidade de reunir causa e efeito. Falta, nesse caso, argúcia, rapidez, dificuldade no uso da lei de causa e efeito. Mas deixemos Schopenhauer de lado e voltemos a nossa caverna, visto que o objeto do nosso estudo, especificamente, são as sombras projetadas no fundo da caverna, e a influência delas em nós. A sombra é um vulto, é ausência de luz, no caso da alegoria da caverna, a sombra é uma projeção obscura da realidade, um vulto da realidade. Desse vulto os prisioneiros alimentam seus sentidos que levam material para o entendimento, que em um próximo passo, formam representações e conceitos a partir de uma “visão” distorcida que conduz ao erro, ao preconceito, a uma ética que não visa ao bem coletivo e nem a felicidade. O prisioneiro da caverna forma um conteúdo interior a partir das sombras que ele vê, e ama seu “saber”. Por isso é tão difícil sair da caverna. O prisioneiro ama uma ilusão acreditando ser a única realidade existente. Desse amor ao “saber” surgem a fé e a crença. Como o prisioneiro da caverna não vê a realidade, ele ama uma sombra. Mas, a pergunta que não quer calar é: seria esse amor verdadeiro? Se pensarmos que a sombra é o não ser e a luz o ser, na sombra reside aquilo que não é o amor, reside o “não amor”, nesse caso, o amor vem do oposto, vem da luz, vem do ser. Na alegoria platônica fica claro que sombra e luz são dois opostos. A sombra está na frente do prisioneiro, no fundo da caverna. Já o fogo que ilumina está no oposto, nas costas do prisioneiro. Na caverna os prisioneiros se apegam as sombras e pensam ser amor verdadeiro. Confundem amor com apego. O amor é libertador, o apego aprisionador (aprisionar+dor). Os prisioneiros da caverna precisam se apegar a alguma coisa para conseguir sobreviver, do contrário eles teriam que admitir o nada interior, eles teriam que admitir a própria ignorância, o desafeto, a angústia etc. Teriam que admitir que seu conteúdo interior é formado por tudo que não é luz. Os prisioneiros da caverna vivem o desprazer e não o prazer, origem de algumas neuroses. Pobres criaturas! Prisioneiros não vivem e sim sobrevivem, afinal, o conceito de vida não inclui prisão e sim libertação. Os prisioneiros nem mesmo se dão de conta de sua prisão, não se dão de conta de que seus conteúdos foram formados a partir de sombras daquilo que poderia ter sido e não foi. Numa relação de causa e efeito os prisioneiros não ligam a sombra com o fogo. Falta de argúcia, diria Schopenhauer, afinal, sem a luz do fogo não poderia haver projeção da sombra no fundo da caverna. Por mais perfeita que seja a visão, para que um homem veja, é preciso que haja a luz (Platão).



03/02/2018

SONHOS - Eliani Gracez


          A raça humana passa 1/3 de sua existência dormindo, e ao dormir, sobrevêm os sonhos. Algumas pessoas sonham eventualmente, outras sonham com mais frequência, outros ainda pensam não sonhar. O fato é que o interesse pelo sonho vem de longa data. Há mais ou menos 4 mil anos os egípcios acreditavam que os sonhos fossem mensagens divinas. Daquela época até os dias de hoje, muitas teorias e pesquisas sugiram. Cientista, filósofos e psicanalistas destinaram um tempo de suas pesquisas aos sonhos. Neste artigo, vamos estudar algumas dessas pesquisas, inclusive aquelas teorias que afirmam a essência divina dos sonhos.
          Dormir não é somente um privilégio humano, os animais também precisam dormir. Se o sono não fosse algo importante ele já teria sido eliminado, pois durante o sono os animais ficam mais vulneráveis a ataques de predadores. Entre os humanos, a quantidade de sono varia de pessoa para pessoa, uns acordam revigorados com cinco ou seis horas de sono, outros precisam dormir por mais tempo. Enquanto dormimos os processos metabólicos continuam, dormir não é uma parada do coração e nem do cérebro, muito menos uma parada respiratória. No processo do sono músculos se movem de vinte a quarenta vezes, pois a pessoa se movimenta enquanto dorme.
          A glândula pineal, que o filósofo francês René Descartes (1596-1650) considerava a morada da alma, e os hindus, a sede de um dos chacras mais importantes do corpo, também é ela que produz o hormônio do sono chamado de Melatonina. Com o fim do dia e a redução da luz a melatonina passa a ser liberada, trazendo o sono. Um dos motivos da falta de sono é a baixa produção de melatonina.
          Durante o sono o cérebro continua ativo. Nas últimas décadas exames foram realizados com aparelhos de eletroencefalograma que registram ondas cerebrais durante as horas de sono e de vigília, mas uma das grandes descobertas foi em 1951, pelo pós-graduado em psicologia Eugene Aserinsky, o chamado sonho REM (Rapid Eye Moviment/Movimento rápido dos olhos). A fase REM do sono é aquela onde se observam movimentos nos olhos. Nesta fase, os sonhos são mais vívidos. A fase REM do sono tem atividade cerebral similar à fase em que se está acordado.
          Em 1959, William Dement fez um experimento de privação de sono com o locutor de rádio Peter Tripp. O locutor ficaria acordado por 200 horas. Nos primeiros dias o locutor manteve sua lucidez, mas logo vieram alucinações, e cinco dias depois ficou seriamente perturbado, chegando a ver o terno de alguém de sua equipe cheio de vermes, acusando outra pessoa de ser o coveiro que viera medi-lo para fazer seu caixão. Com o fim da experiência, o locutor dormiu e recuperou a sanidade, permanecendo por semanas com a sensação de depressão.
          Existe uma nítida ligação entre o sono e a depressão. Dormir bem ajuda pessoas com depressão a ter uma melhor qualidade de vida, e a falta do sono a ter uma recaída na depressão. Pacientes com depressão, em sua maioria, relatam algum distúrbio do sono. O sono é importante para a saúde física e mental. Estabelecer bons hábitos de sono é fundamental, sobretudo, para quem sofre de depressão ou bipolaridade. No entanto, normalmente, o sono é a primeira coisa que sacrificamos quando estamos estressados ou sobrecarregados de serviço. Durante o sono existem várias fases distintas, incluindo alterações nos batimentos cardíacos, movimentos musculares e muito mais. Um processo inconsciente que dura a noite toda. Dormir mal ou ter poucas horas de sono, como também dormir excessivamente, pode afetar a saúde física e mental, por isso autorize-se a dormir adequadamente.
          Segundo Eddie Van Feu, sonhar pode ser o produto mental do mesmo tipo de processo psicológico que se percebe nas enfermidades mentais. A diferença é que o sonho se dá quando dormimos. De alguma forma, enquanto dormimos, somos delirantes e dementes.
          O sonho é mais importante para a psicanálise do que o sono em si. Ao dormir, vem o sono leve e os pensamentos podem ficar descoordenados. Sobrevém o sono intermediário onde pode haver experiências sensoriais irreais e pequenos tremores repentinos no corpo. Então vem o momento do sono mais profundo ainda, onde a pessoa fica aleia aos movimentos ao seu redor. E por fim, no último estágio vem o sono mais profundo onde pode haver o sonambulismo, algumas pessoas nesse estágio falam enquanto dormem. No sono REM, onde ocorre ativação do sistema límbico do cérebro, movimentos primitivos acontecem, é onde, segundo Freud, ocorre a regressão que leva aos estados primitivos da infância. O sonho parece estar além da linguagem conhecida por nós, isso porque desconhecemos muitos dos simbolismos que se apresentam em sonhos. No entanto, em uma avaliação mais detalhada, é possível perceber que o significado está no cotidiano ou na vida pregressa do sonhador. Uma paciente certa vez teve o seguinte sonho: sonhou que uma pessoa que ela gostava estava sendo ameaçada por um bandido. Ela não compreendeu o sonho e nem sabia quem eram aquelas pessoas que apareciam no sonho, mas estava preocupada com as ameaças feitas. Quando perguntei à ela quem era a pessoa que ela gostava na vira real, após um breve silêncio ela resposta que  era o namorado. Quando perguntei quem era a pessoa que ameaçava o namorado ou o namoro, ela respondeu que era um ex namorado que insistia em voltar a namorá-la. Aquilo que a princípio carecia de entendimento, tornou-se claro em uma análise da vida cotidiana da analisanda e da pergunta certa, ou, assertiva. O sonho precisa ser interpretado a luz do conteúdo interno de cada sonhador. Somente o sonhador pode dar significado ao seu próprio sonho ao trazer o sonho para sua própria linguagem, símbolos e signos. Em muitos casos é o sentido daquilo que sonhamos que deve ser analisado. No sonho citado anteriormente, o sentido está no medo das ameaças. A analisanda se sentia ameaçada pelo ex namorado que desejava reatar o namoro. Para Freud, o sonho é a estrada real que conduz ao inconsciente. A interpretação de símbolos, a partir do conteúdo do sonhador, é fundamental para compreender a natureza humana. Em um sonho é possível saber como o sonhador lida com as forças malignas ou sombrias, para então entender como a pessoa desperta lida com a adversidade, oposição de ideias etc. Carl Yung, discípulo de Freud, acrescenta algo importante aos sonhos que ele chamou de eventos psíquicos. Um exemplo desse tipo de sonho é uma criança que sonhou que anjos estavam levando seu irmão, quando acordou o irmão havia falecido.
          Com o fenômeno dos sonhos surgiu no passado da humanidade o conceito de alma humana que agia no mundo dos sonhos. Na antiguidade, alguns povos pensavam que os sonhos possuíam um significado. Pessoas como os profetas e sacerdotes traduziam as mensagens contidas nos sonhos. Hipócrates, médico grego (460-377 a.C.), escreveu no Tratado sobre os sonhos: “Alguns sonhos são de inspiração divina, outros são frutos do corpo físico”. Hipócrates acreditava que nos sonhos era possível prever doenças. Segundo ele, se em um sonho os astros são vistos fracamente, ou brilham fracamente e parecem ter parado de girar, isso é sinal de doença. Hipócrates vai mais adiante, a cor preta em sonho é sinal de doença física, sonhos de voo indicam perturbação mental. No Egito antigo, temos a famosa interpretação dos sonhos de José (Gênesis, antigo testamento). São vários sonhos interpretados por José, e outros sonhos que o próprio José sonhou e que se tornaram realidade. Um dos sonhos interpretados por José foi o sonho em que o faraó viu sete espigas de milho subindo de uma mesma haste granada e bela, mas eis que sete outras espigas de milho pequenas e queimadas nasciam atrás delas, e as sete espigas pequenas e queimadas devoravam as sete espigas granadas e belas. José disse ao faraó ser um aviso que a região teria sete anos de fartura , e depois viriam sete anos de miséria. Acreditando na interpretação de José, o faraó deu a José a tarefa de armazenar um quinto de todo o grão que fosse colhido no período de fartura. Passados sete anos de fartura sobrevieram os sete anos de escassez, como José havia interpretado.  Conta na Ilíada de Homero que enquanto Aquiles dormia o fantasma de seu amigo Pátroclo apareceu para ele dando instruções sobre seu funeral.  A Bíblia conta que em sonho José recebeu orientação sobre a gravidez de Maria: “José, não temas receber Maria como tua esposa, porque o que nela está gerado vem do Espírito Santo” (Mat 1:20).   Também a gravidez do Buda Siddhartha Gautama, foi revelada à sua mãe em sonho, e Maomé recebeu de Alá a primeira parte do Corão em sonho. Pela manhã Maomé interpretava seus sonhos e o sonho dos seus discípulos.
           O filósofo francês René Descartes (1596-1650) era um exímio sonhador, em 10 de novembro de 1619, Descartes teve três sonhos. Os dois primeiros cheios de aparições, vendaval e trovões que ele interpretou como sendo representações das consequências de seus pecados. No terceiro sonho ele recebia um dicionário e um livro de poesia. Descartes interpretou o dicionário como sendo a ciência, e o livro de poesia como sendo a filosofia. O filósofo Frances acreditava que ele tinha sido visitado pelo espírito da verdade. A romancista inglesa Charlotte Brontë (1816-1855) dizia que quando tinha dificuldades com seu texto ela se concentrava nele antes de dormir e acordava com o problema resolvido. Napoleão Bonaparte (1769-1821) não desprezava as ideias que vinham em sonho, ao acordar ele experimentava as táticas oníricas com miniaturas em uma caixa de areia.

          Encontramos nos sonhos uma forma pela qual o inconsciente se expressa, um acesso ao mundo da realidade de nossa não consciência, ou, inconsciência, ou, não sabedoria. Com + ciência = consciência, mas, onde está aquilo que ainda não sabemos e que de um momento para o  outro passamos a ter ciência? Se passamos a ter ciência é porque já estava pronto para ser acessado em algum lugar no nosso mundo interior, esperando ser trazido a consciência para ser estudado e analisado.  Reza a lenda que do caos surge a ordem. A própria bíblia diz que no principio só existiam as trevas. Seriam essas “trevas” o nosso inconsciente caótico onde contem aquilo que será trazido a ordem e que ainda não sabemos. Um filósofo antigo dizia que nós não sabemos nem mesmo o quanto não sabemos. Bons sonhos!

27/08/2017

OS INDESEJÁVEIS

Eliani Gracez – Coach, Psicanalista e Filósofa clínica


Inspirado em Claudio Mello Wagner, “indesejáveis até que ponto?” A sociedade cria pessoas "indesejáveis" e depois as exclui. O desejo inicial é de que essas pessoas não existissem, por isso, a sociedade finge que elas não existem. Os “indesejáveis” são dependentes químicos, esquizofrênicos, doentes mentais, moradores de rua etc. Ameaçada, a sociedade aumenta a repressão para manter os “indesejáveis” o mais longe possível. Cria-se então a indústria da segurança: grades, alarmes, portaria 24 horas. A sociedade trata como se a solução fosse manter os indesejáveis o mais longe possível. Essa é a saída encontrada pela sociedade. No entanto, saída não é solução. Saída é paliativo, a solução está em deixar de produzir “indesejáveis”, e parar de produzir “indesejáveis” é ir ao mundo do outro para ver o que tem lá, para isso, temos que enfrentar os nossos medos e limites. Temos que enfrentar a falência social e moral. Temos que ir ao vale da morte onde o outro se encontra marginalizado social e culturalmente. Cada sociedade ou organização social produz regras, leis, estatutos, e deseja que seus indivíduos concordem com isso. Aqueles que não se enquadram tornam-se “indesejáveis” e, portanto, um problema social. Assim são eliminados os subversivos ou aqueles que ultrapassam a legalidade. A sociedade trata os “indesejáveis” como se fossem doentes, no entanto, o doente é a sociedade que produz seres humanos que não se enquadram dentro das normas e depois os exclui como se fossem lixo ou coisa descartável. Cada pessoa tem uma singularidade que tem que ser incluída na coletividade. Espera-se uma simbiose perfeita desta união, o problema, nesse caso, está no esperado, visto que nem sempre a singularidade de cada pessoa se enquadra no ideal social. O problema agora é o que fazer com os “indesejáveis”, mas, sobretudo, o que fazer com aqueles que indesejam os indesejáveis. 

09/08/2017

O inconsciente e o simbólico - Eliani Gracez Nedel

Na busca pelo autoconhecimento iniciamos um processo de comunicação com o nosso conteúdo inconsciente.   Para conhecermos a nós mesmo é preciso entrar em contato com nosso inconsciente que é vasto, subjetivo, ilimitado e simbólico, enquanto nosso consciente é limitado e objetivo.  O consciente não controla o nosso comportamento, pois mesmo nossas ações conscientes em muito resultam do inconsciente. O inconsciente é a região da psique constituída por desejos, paixões, pulsões, libido, recalcamentos e simbolismo. Com paciência e disposição muitos elementos do nosso mundo interior vêm a luz da consciência. No entanto nem sempre isso se dá de forma objetiva, em muitos casos o conteúdo inconsciente vem através de sonhos. Um conteúdo muitas vezes simbólico que permeia nosso sonho. Ao dormir entramos em contato com o inconsciente que é irracional. Por isso, na maioria das vezes, nossos sonhos são desprovidos de racionalidade, e uma tentativa de interpretação do sonho com a mente, que é limitada, tornam-se infrutíferos. O conteúdo inconsciente possui uma amplitude muito maior do que a consciência. A psique é constituída por elementos oriundos de várias fontes: família, cultura, etnia. Em última instância elementos inconscientes da espécie humana. Formando assim o inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo. Comum ouvirmos de pessoas que existe uma autenticidade em seu pensamento ou jeito de ser. Em uma análise mais profunda é possível identificar uma herança cultural, hábitos adquiridos pelo lugar ou sociedade em que ela foi criada e que moldaram o seu modo se ser. Caindo  nesse caso, em um senso comum e não crítico. Devido a inconsciência da real formação do psiquismo a maioria das pessoas, senão a totalidade delas, não sabem nem mesmo aquilo que elas não sabem. Tornando-se verdadeiros desconhecidos para elas mesmas. Nessa concepção revela-se o senso comum que está enquadrada a maioria das pessoas, contrapostos a um inconsciente que possui uma estrutura imagética, arquetípica, simbólica, instintiva e impulsiva, ou, automática. A consciência opera pelo raciocínio causal e lógico, o inconsciente opera de forma irracional, ele está além daquilo que pode ser compreendido pelos limites da mente. O consciente está em nós por meio da lógica e pensamento analítico, e o inconsciente pode ser encontrado por analogia, encontrado nos sonhos, nas fantasias e no pensamento mítico.


17/07/2017

Duas Massas Artificiais: A Igreja e o Exército

Eliani Gracez Nedel
        
          Podemos distinguir tipos de massas (psicologia social ou de grupo) diferentes em sua formação e orientação. Massas duradoras e massas fugazes, massas constituídas por indivíduos semelhantes e massas constituídas por indivíduos não semelhantes, massas naturais e massas artificiais, massas primitivas, massas altamente organizadas. Nossa investigação volta seu olhar para as massas artificiais: igreja e exército. A igreja e o exército são massas artificiais porque empregam certa ação coercitiva externa para não se diluir e nem modificar sua estrutura. Normalmente as pessoas não são consultadas se desejam entrar em uma massa dessas, não existe livre arbítrio. Essas massas através de ações coercitivas estão protegidas pela desagregação. Tanto na igreja quanto no Exército encontra-se a ilusão de que existe um chefe que ama a todos. Na igreja católica há o Cristo, no Exército, o general, que ama a todos na massa com igualdade. Sem esse princípio coercitivo tanto a igreja quanto o Exército se desintegrariam. Na igreja o amor a Cristo, no Exército o amor a pátria. A relação dessas duas massas com o indivíduo crente se dá de forma paternal. Na igreja existe uma linha democrática porque todos são iguais diante do Cristo. Com razão a igreja se assemelha a uma família unida como irmãos em Cristo. Algo semelhante acontece com o Exército onde um general ama a todos os seus soldados do mesmo modo. Uma hierarquia muito semelhante formou-se tanto na igreja quanto no Exército. Toda religião é uma religião de amor para aqueles que a seguem, mas tende a intolerância para aqueles que não pertencem a essa massa moralmente organizada.
           As neuroses de guerra, reconhecido como protestos do indivíduo contra o papel que lhe era atribuído no Exército e contra a desumana situação da guerra estão entre os motivos do adoecer. Nessas duas massas artificiais o indivíduo encontra-se ligado libidinosamente ao líder e aos demais indivíduos da massa. Existe uma ligação libidinosa no Exército com relação ao pânico que surge quando a massa se desagrega. O exército que sucumbe ao pânico pode ter suportado perigos incalculáveis. O indivíduo que tomado pelo medo cuidar de si mesmo  denota ter cessado as ligações afetivas. Agora enfrenta o perigo sozinho, e com isso existe um afrouxamento nas estruturas libidinosas da massa. Essas observações são para o caso de grande perigo e real. A desagregação de uma massa religiosa não é comum de acontecer.

 A identificação

          A identificação é conhecida como a manifestação mais precoce entre as ligações emocionais. Ela está na pré-história do complexo de Édipo. O menininho se identifica com o pai, quer se tornar como o pai, ele gostaria de tomar o lugar do pai em todos os aspectos. E assim o complexo de Édipo ajuda a preparar a criança. Simultaneamente, esse menininho começou a fazer um investimento objetal da mãe. Ele mostra duas ligações: um investimento sexual de objeto com a mãe, e com relação ao pai uma identificação de modelo a ser seguido. A identificação é ambivalente desde o início, o menininho percebe que seu pai bloqueia o acesso junto a mãe, a identificação assume uma posição hostil e se torna idêntica ao desejo de substituir o pai junto a mãe. Nessa ambivalência a criança pode voltar sua identificação para a ternura como para um processo de eliminação. Nesse sentido, a identificação é a forma de ligação com o emocional mais antiga que existe, mesmo que seja para o recalcamento de mecanismos inconscientes. Muitas vezes o eu toma para si as qualidades do objeto, em muitos casos o eu toma as qualidades da pessoa não amada, podendo também tomar para si as qualidades da pessoa amada que se transforma em objeto. Nesse sentido, a identificação é a forma mais antiga de ligação entre o objeto e as emoções. Pela identificação acontece a introjeção do objeto no eu que forma uma emoção objetal libidinosa. Também acontece a identificação não objetal, esse tipo de identificação forma-se quando pessoas possuem características em comum.
          Outro exemplo de introjeção do objeto se dá na perda do objeto amado, causando autodepreciação do eu e melancolia. Na introjeção dá-se a consciência moral do eu ou autocrítica. Pouco a pouco a criança vai introjetando regras de comportamento moral que ela retira do meio ambiente em que vive, sobretudo na autoridade dos pais. A diferença entre identificação do eu com o objeto e idealização do eu para com o objeto encontram-se no estudo de duas massas: a Igreja cristã e o Exército. No Exército o soldado toma o seu comandante como ideal enquanto se identifica com aqueles que são iguais a si, dessa comunhão de eus derivam as obrigações da camaradagem e divisão de bens. Na igreja Católica as coisas são diferentes, a igreja exige que cada cristão se identifique com Cristo e ame os outros cristãos como cristo amou, o objeto nesse caso é o amor. A igreja exige um amor objetal e ideal. Com isso ela une o objeto ao seu ideal através da identificação com o Cristo. Esse avanço libidinal da Igreja Católica baseia sua pretensão em ter uma moral mais elevada.


11/07/2017

Psicologia de Massa - Eliani Gracez Nedel

  A oposição entre psicologia individual (Eu) e psicologia social (das massa) aponta o ponto onde o individuo abre mão do se Eu para adotar uma moral social ou de massa. A psicologia individual está orientada para a singularidade do caminho pelo qual o indivíduo percorre na busca da satisfação de seus impulsos para chegar ao prazer. Muitas vezes, nessa busca pela satisfação o outro é esquecido. Ao levar em consideração a influencia do outro no aparelho psíquico do indivíduo a análise passa a ser social. Nesse sentido, o psiquismo individual também passa a ser um psiquismo social, onde a moral de um passa a influenciar a moral do outro.
  A interação social do indivíduo com os pais, professores, amigos, interação profissional ou com a pessoa amada, tornaram-se assuntos de investigação psicanalítica como fenômeno social opondo-se ao narcisismo cuja satisfação dos desejos não sofre a influência de outras pessoas. A psicologia das massas trata a pessoa como integrante de uma tribo, uma casta, uma classe, instituição ou como pertencente a um grupo de pessoas que em um determinado momento se organizam como massa, levados por um impulso social, quem sabe, já encontrado na família. Afinal, o que é uma massa e como ela influencia a vida psíquica do indivíduo? A massa adquire uma alma coletiva, um pensamento coletivo que da coesão a massa. A massa torna-se assim um ser constituído por várias partes heterogêneas que se ligam entre si. Na massa a singularidade do indivíduo desaparece, o heterogêneo desaparece no homogêneo. A estrutura que se desenvolveu no indivíduo desaparece, tornando-se visível o inconsciente. Na massa o individuo adquire o sentimento de poder que lhe permite entregar-se aos instintos. Na massa o indivíduo mostra o inconsciente que contém tudo que é de malvado ou animalesco no ser humano. Como por exemplo, o desaparecimento da consciência moral ou do sentimento de responsabilidade. A consciência moral é formada pelo medo social. Na massa o medo social é diluído no todo, sem o medo social perde-se a consciência moral. Portanto, no núcleo da consciência moral está o medo. Na multidão também é possível observar que os sentimentos são contagiosos, levando muitas vezes o indivíduo a abrir mão de seus interesses em detrimento de interesses coletivos. Mediante procedimentos variados, e depois de ter perdido a inteira consciência de si, um ser humano obedece às sugestões da massa, equiparado a uma hipnose. Em outro ponto de vista o indivíduo que em seu isolamento pode ser uma pessoa culta, educada e tranquila, na massa perde a racionalidade tornando-se mais instintivo e voraz, tornando-se mais agressivo. Em meio a tudo isso, na massa o indivíduo encontra o entusiasmo que na solidão nem sempre é possível de ser encontrado, um ânimo onde uma pessoa impulsiona o outro.
    Outras observações da psique de massa são a inibição da capacidade intelectual e a intensificação da afetividade. A afetividade ainda pode ser intensificada pela sensação de poder. A massa inteira é portadora da autoridade temida pelas demais pessoas. Por isso torna-se perigoso ir contra a massa. Um exemplo disso é a igreja católica no período medieval. A igreja constituiu-se uma massa organizada que devorava quem a ela fizesse oposição. Também é possível observar que em alguns casos a moral individual seja exacerbada e a massa impõe rigidez moral, esse é o caso das religiões. Um indivíduo em uma massa, pela influência desta, experimenta modificação intensa em seu psiquismo. Sua afetividade aumenta enquanto sua capacidade intelectual torna-se limitada. Isso acontece para que o indivíduo possa se nivelar aos demais integrantes da massa. Para atingir esse nivelamento o indivíduo suprime seus impulsos e suas inclinações. Os princípios éticos da massa ou de um grupo podem ser mais elevados do que os princípios éticos dos indivíduos que compõe a massa. Na massa a moralidade ganha força, enquanto a vontade individual se perde em meio ao poder moral da massa.
    Sobre os lideres de um grupo, assim que uma massa se forma ela se torna um rebanho que se coloca sob o controle de um chefe. Um grupo é um rebanho que obedece ao seu senhor. O chefe tem que ser possuidor de prestígio que fascina a massa. E assim o prestígio une as pessoas em uma massa. Todo prestígio se perde em caso de fracasso. A passagem de uma psicologia individual para uma psicologia de massa onde o indivíduo se submete a moral da massa abrindo mão de seus anseios constitui-se em fonte de muito estudo por parte de sociólogos, antropólogos, psicanalistas entre outros. Freud aponta alguns motivos em seu artigo Psicologia das massas e análise do Eu. Cada indivíduo pode ter seus motivos que o levam a preferir se esconder em uma massa a ter que lutar contra ela e viver autoafirmado em seu Eu.